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Por Marcelo Szpilman*
Em
recente viagem à África do Sul, onde tive o grande
prazer de mergulhar com o tubarão-tigre e o cabeça-chata,
sem gaiola ou qualquer tipo de proteção, com o objetivo
de desmistificar esses animais injustiçados, fiz questao
de visitar e conhecer os bastidores da instituição
governamental Natal Shark Board (NSB), cuja missão,
desde sua criação em 1962, é “aprovar,
controlar e iniciar medidas para salvaguardar os banhistas contra
ataques de tubarão” no litoral de Durban e adjacências
da província de Natal, hoje conhecida como KwaZulu-Natal.
Meu objetivo, ao escrever esse artigo, é abordar a questão
das redes de tubarão como meio de proteção
aos banhistas e sua infeliz relação com o comércio
mundial de barbatanas. Mas antes, vale a pena discorrer um pouco
sobre a história dessas redes na África do Sul e sua
ligação com os ataques de tubarão.
Historicamente, o clima subtropical e as águas quentes sempre
atraíram visitantes para as praias de Durban e, infelizmente,
ocasionais ataques de tubarão ali ocorriam. Já em
1907, o conselho da cidade resolveu erguer uma cerca de exclusão
semi-circular com 180 metros de diâmetro para proteger os
banhistas. Em função dos danos sofridos pelas constantes
ondas e pela corrosão, e devido ao alto custo de manutenção,
a estrutura foi demolida em 1928. Nos onze anos seguintes não
houve grandes problemas com os tubarões, mas em 1940 cinco
ataques foram registrados ao longo de 8 km de litoral, ao sul de
Durban. Entre 1943 e 1951, ocorreram mais 21 ataques em Durban,
com sete fatalidades.
Desesperadas por um solução, as autoridades da cidade
resolveram adotar o mesmo sistema usado com sucesso na Austrália
desde 1937, onde grandes redes de pesca (de emalhar) são
ancoradas após a linha de arrebentação das
ondas. Sua função não é produzir uma
barreira de exclusão, mas sim capturar e matar boa parte
dos tubarões que insistem em nadar nas vizinhanças
das praias protegidas. A efetividade da rede de tubarão tem
sido atribuída à redução do número
de tubarões ocorrentes na área e, por conseguinte,
à diminuição da probabilidade de um encontro
do tubarão com o homem.
Em 1952, sete redes de tubarão, cada uma com 130 metros de
extensão, foram colocadas nas praias de Durban. No primeiro
ano de operação, capturou 552 tubarões e atingiu
os objetivos propostos __ desde então nenhum ataque sério
ocorreu naquelas praias protegidas. No entanto, essas medidas de
proteção não foram disseminadas no restante
da costa de KwaZulu-Natal, particularmente ao sul de Durban, onde
uma série de ataques entre dezembro de 1957 (que ficou conhecido
como “dezembro negro”) e março de 1958 provocou
a morte de cinco pessoas. Esse evento teve um efeito devastador
sobre a indústria do turismo local.
Em
resposta ao clamor público e temendo a queda na receita proveniente
do turismo, diversas cidades do litoral tentaram erguer barreiras
físicas nas zonas de arrebentação para criar
áreas de exclusão para os banhistas. Construídas
com postes, arames e redes, essas estruturas não resistiram
à ação impiedosa das ondas e logo foram abandonadas.
Até a marinha sul-africana foi acionada para disparar cargas
de profundidade, porém os poucos tubarões mortos atraíram
ainda mais tubarões para deles se alimentarem.
Em
1962, a operação das redes de tubarão foi então
expandida para o norte e o sul de Durban, chegando a 15 praias em
1966, cada uma protegida por duas ou três redes com 6 m de
altura e 200 a 300 m de extensão. Nessa época, quando
prevalecia o conceito “tubarão bom é tubarão
morto”, quase todos os tubarões achados ainda vivos
nas redes eram mortos, especialmente os mais perigosos, como o tubarão-branco,
o tubarão-tigre e o cabeça-chata. Atualmente, com
29 km de redes espalhadas com intervalos ao longo de 320 km de litoral,
protegendo 38 localidades de KwaZulu-Natal, o conceito mudou e o
NSB passou a liberar todos os tubarões achados vivos, incluindo
aqueles mais perigosos.
Um
forte argumento utilizado pelo Natal Shark Board (NSB)
em favor da utilização das redes de tubarão
é a drástica redução no número
de ataques e principalmente de óbitos. Em Durban, de 1943
a 1952, antes da instalação das redes, houve sete
ataques fatais. Após a colocação das redes,
não houve fatalidades. Nas outras localidades de KwaZulu-Natal,
de 1940 até 1960, quando a maioria das praias colocou suas
primeiras redes de tubarão, houve 16 ataques fatais e 11
ataques com danos sérios. Nas três décadas seguintes,
desde que as redes foram instaladas, não houve nenhuma fatalidade
e apenas quatro ataques resultaram em danos sérios. Atualmente,
nas praias de KwaZulu-Natal, a média é de apenas um
ataque por ano.
Uma
análise dos registros nas últimas quatro décadas
em toda a África do Sul mostra que o ataque de tubarão
é um evento raro, com uma média de 4 ataques por ano,
onde menos de 30% resultam em danos sérios e somente 11%
são fatais. Em 14 anos (de 1990 a 2004) houve 71 ataques
com 9 fatalidades em toda a África do Sul. No Brasil, no
mesmo período, foram 67 ataques com 17 fatalidades.
É
interessante traçar um paralelo do histórico de Durban,
acima relatado, com o problema dos ataques de tubarão que
o Estado de Pernambuco vem enfrentando nos últimos 14 anos
__ de 1990 a 2004 foram 45 ataques com 14 mortes __, e perceber
o quanto ele tem em comum com a reinvidicação local
dos surfistas e vítimas de ataque, na ocasião do II
Workshop Internacional de Ataques de Tubarões, ocorrido no
Recife, em julho de 2004, por medidas imediatas para solucionar
o problema, incluindo a adoção de redes para capturar
os tubarões. O uso dessas redes de proteção,
no entanto, foi veemente desaconselhado por todos os especialistas
presentes, incluindo o diretor do Natal Shark Board (NSB),
Dr. Geremy Cliff, da África do Sul, e o Dr. Matt Broadhust,
da Austrália, países notadamente defensores de tais
práticas. Destacaram, como contraproducente, o forte impacto
ambiental e o alto custo de implantação e manutenção
dos equipamentos. O Dr. George Burgess, dos EUA, país que
não adota essa medida, acrescentou que essas redes estão
ultrapassadas por serem muito antiecológicas e por provocarem
um impacto desproporcional ao problema a ser enfrentado.
A
captura média anual das redes de tubarão na província
de KwaZulu-Natal, nos últimos 22 anos, tem sido de 1.250
tubarões (de 14 espécies diferentes, com 15 a 20%
de animais liberados vivos), 350 raias (7 espécies, com 65
a 70% liberadas vivas), 70 tartarugas marinhas (2 espécies,
com 35% liberadas vivas), 100 golfinhos (3 espécies) e 40
peixes ósseos diversos.
Ainda
que boa parte da “velha guarda” do NSB acredite que
a captura da maioria das espécies seja sustentável
do ponto de vista populacional, a indiscutível necessidade
de se proteger a vida e os ecossistemas marinhos e a pressão
das entidades ambientalistas locais e internacionais têm forçado
a uma mudança de atitude em suas ações predatórias.
Diversas iniciativas vêm sendo implantadas (redução
de 27% das redes de proteção das praias) ou estão
sendo avaliadas (uso de “drumlines”, grandes
anzóis iscados suspensos por flutuadores e ancorados no fundo,
como já ocorre na Austrália) para reduzir a mortalidade
dos animais marinhos sem descuidar da segurança dos banhistas.
As
carcaças dos tubarões mortos, levadas para o prédio
do Natal Shark Board (NSB), são utilizadas para
fins científicos e para dissecções públicas
e diárias __ cerca de 60 mil pessoas visitam todo ano o NSB.
Junto com a exposição de painéis e displays
estatísticos e auto-explicativos, o objetivo apregoado pela
instituição é educar a população,
passar conceitos sobre práticas recreativas seguras no mar
e transmitir conhecimentos sobre a biologia, a ecologia e a conservação
dos tubarões.
A
abordagem que o NSB dá ao tema conservação
dos tubarões e as cenas que presenciei no passeio
por suas instalações são absolutamente
contraditórias e me deixaram bastante perplexo.
Seu
site (www.shark.co.za) trata do tema em diversas páginas,
discorrendo sobre:
1. “Por que devemos nos interessar pela
conservação dos tubarões” - abordando
a questão da cadeia alimentar e a vulnerabilidade dos tubarões
à sobrepesca.
2 . “Ameaças aos tubarões”
– explicando, entre outras coisas, que uma das razões
para o grande aumento da pesca dos tubarões foi o crescente
mercado de barbatanas de tubarão e que alguns países,
incluindo a África do Sul, baniram a prática do “finning”
(pesca onde os tubarões são mortos exclusivamente
para obtenção das barbatanas, usadas no preparo da
sopa de barbatana).
3. “Esforços internacionais de
conservação” – citando organismos
internacionais de conservação, como a IUCN, o CITES
e a FAO, e suas demandas por planos que assegurem a sustentabilidade
da pesca dos tubarões.
4. “Legislação de proteção
aos tubarões na África do Sul” –
informando que o tubarão branco é totalmente protegido
por lei e que nenhuma parte ou produto advindo dele pode ser comercializado,
e que existe uma legislação específica determinando
que todo tubarão desembarcado, transportado ou vendido deve
estar inteiro, de modo a previnir a prática da pesca para
obtenção da barbatana (finning) e o descarte
da carcaça, que é devolvida ao mar.
Ainda
assim, o Natal Shark Board (NSB) vende em sua bonita e
confortável loja arcadas completas retiradas dos tubarões
dissecados. Utilizar partes do corpo do tubarão para a obtenção
de souvenir para comercialização é algo bastante
controverso e questionável para uma instituição
que se diz preocupada com a conservação dos tubarões.
O que dizer então da comercialização de suas
barbatanas?
Nessa
visita ao NSB, onde fui muito bem recebido por seu diretor, Dr.
Geremy Cliff, descobri que, com exceção do tubarão-branco,
que é protegido por lei, as barbatanas dos tubarões
capturados e mortos nas redes de proteção e nos espinheis
de superfície (drumlines) são comercializadas
para obtenção de receita (estimada em 50
mil dólares por ano) revertida para a própria
institutição.
Sabemos
que existe um mercado oficial de barbatanas advindas da pesca comercial,
onde os tubarões são processados para o consumo humano.
É óbvio que as barbatanas vêm junto com o tubarão
e, nos casos em que há um cuidado no manejo da pesca, é
legítimo sua comercialização. O grande problema
é que nos últimos anos houve uma explosão na
prática do finning e a sobrevivência de diversas espécies
está seriamente ameaçada.
Questionado
por mim a respeito dessa prática, o Dr. Geremy Cliff declarou:
“O NSB condena a prática do finning e qualquer tubarão
encontrado vivo nas redes é liberado vivo, com suas nadadeiras
intactas. O NSB apenas remove as nadadeiras dos tubarões
encontrados mortos nas redes. Nós não capturamos tubarões
com o objetivo de gerar dinheiro com suas nadadeiras”.
Apesar
dos argumentos acima, creio firmemente que a venda das barbatanas
pelo NSB evidencia um flagrante conflito de interesses. Mas vai
além disso. Ao abastecer o lucrativo mercado de barbatanas,
nos últimos 23 anos, o NSB incentiva seu comércio
ilegal e ganancioso e acaba, de certa forma, boicotando as iniciativas
e pressões internacionais para banir o finning e proteger
os tubarões. Guardadas as devidas proporções,
seria como se o Ibama comercializasse partes dos animais capturados
mortos do tráfico de animais silvestres e da caça
ilegal (penas, bicos, peles, chifres e cascos) a fim de obter dinheiro
para a própria instituição.
Como
ambientalista e diretor do Instituto Ecológico Aqualung e
do Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA), não poderia
ficar calado diante desse absurdo institucionalizado. Espero, com
essa denúncia, forçar uma revisão de conduta
por parte do Natal Shark Board.
*Marcelo
Szpilman, Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com Pós-Graduação
Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela COPPE/UFRJ, é autor
do livro GUIA AQUALUNG DE PEIXES, editado em 1991, de sua versão
ampliada em inglês AQUALUNG GUIDE TO FISHES, editado em 1992,
do livro SERES MARINHOS, editado em 1998/99, do livro PEIXES MARINHOS
DO BRASIL, editado em 2000/01, do livro TUBARÕES NO BRASIL,
editado em 2004, e de várias matérias e artigos sobre
a natureza, ecologia, evolução e fauna marinha publicados
nos últimos anos em diversas revistas e jornais e no Informativo
do Instituto. Atualmente, Marcelo Szpilman é diretor do Instituto
Ecológico Aqualung, Editor e Redator do Informativo do citado
Instituto, diretor do Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA)
e membro da Comissão Científica Nacional (COCIEN)
da Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos
(CBPDS).
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