Por
Marcelo Szpilman*
Parecia
estarmos revivendo uma das poucas situações factíveis
do filme “Tubarão”, de Steven Spielberg. A tentativa
de solucionar um problema real e imediato __ ataques de tubarão
com mutilações e mortes __ com os mais diversos e
conflitantes interesses sendo defendidos por seus representantes.
Ao contrário da ficção, onde empreendeu-se
uma insana caçada aos tubarões, o bom senso prevaleceu,
felizmente.
No salão nobre da Universidade
Federal Rural de Pernambuco, cerca de 400 pessoas, incluindo os
maiores especialistas em ataque de tubarões no Brasil e no
mundo e os membros do Comitê Estadual de Monitoramento de
Incidentes com Tubarões (Cemit), passaram dois dias inteiros
(8 e 9 de julho) no II Workshop Internacional de Ataques de Tubarões
discutindo, de forma absolutamente democrática, a questão
que hoje aflige a população da Grande Recife.
Composto por representantes dos mais
diversos segmentos da sociedade, e coordenado pelo engenheiro de
pesca Fábio Hazin, o Cemit foi criado em maio de 2004 com
o objetivo de discutir, deliberar e implementar as ações
recomendadas pelo I Workshop, realizado em 1995. O Cemit, então,
estabeleceu quatro importantes ações iniciais: campanhas
educativas nas praias, fiscalização, orientação
e segurança nas praias, pesquisa e monitoramento dos tubarões
e a unificação dos números de ataques em Recife.
Os números de ataques no litoral
pernambucano há tempos geravam discussões. Para o
período de 1992 a 2004, o Corpo de Bombeiros dizia que eram
49 ataques com 14 mortes. A UFRPE relatava 44 ataques com 13 mortes,
enquanto o IML apresentava 97 ataques com 63 mortes. No final de
maio, após um exaustivo dia de reunião entre os representantes
dessas entidades, os dados foram unificados em 44 ataques com 16
mortes.
Por iniciativa dos estudantes do
PET-Biologia da UFRPE, contando com o apoio e a promoção
do Departamento de Pesca da UFRPE, do Cemit e do Governo do Estado,
o II Workshop foi criado para levantar a discussão do problema
na comunidade acadêmica e servir de instrumento de avaliação
do trabalho e das ações do próprio Cemit pela
crítica especializada.
O primeiro dia foi todo ocupado por
variadas e informativas palestras. George Burggess, da Flórida,
Matthew Broadhurst, da Austrália, e Geremy Cliff, da África
do Sul, relataram os problemas enfrentados e as soluções
encontradas em seus países de origem. Fábio Hazin,
Otto Gadig, Rosangela Lessa e eu falamos do problema no Brasil e
em Recife e na necessidade de se preservar os tubarões, fundamentais
para o equilíbrio e a saúde do ecossistema marinho.
É interessante mencionar a
diferença de abordagem das palestras ministradas em Recife
daquelas que ocorrem no resto do Brasil. Quando estive em Recife
no mês de abril, onde realizei três palestras, já
havia sentido tal diferença. Quando falamos em ataque de
tubarão para um público carioca, paulista ou mineiro,
a percepção que se tem é de que o tema abordado
está bem longe da realidade vivida por todos nós.
No entanto, quando se está em Recife tudo muda de figura;
existe um perigo real para os banhistas e surfistas. A mudança
de abordagem é ainda mais intensa quando se tem na platéia,
como ocorreu na palestra que dei nesse Workshop, a presença
de três vítimas de ataque de tubarão nas praias
de Recife, entre eles o banhista que em maio perdeu a mão
e a perna na praia de Piedade.
No segundo dia houve pela manhã
mais algumas palestras. O Oceanário de Pernambuco falou sobre
as campanhas de educação, o Corpo de Bombeiros descreveu
as ações de vigilância e fiscalização
e o IML mostrou as desagradáveis fotos de cadáveres
presumidamente atacados por tubarões. Foram ainda apresentados
dois sistemas de proteção eletromagnética criados
para uma possível (não comprovada) proteção
parcial de algumas áreas de praia.
Na parte da tarde, os especialistas-palestrantes
fizeram suas análises e recomendações pertinentes
às medidas adotadas pelo Cemit, houve uma reunião
aberta do mesmo e posteriormente passou-se à discussão
e ao fechamento do Workshop.
Integrantes do Projeto Praia Segura,
que reúne surfistas e vítimas de ataque, pressionavam
a todos por uma medida imediata para solucionar o problema dos ataques,
incluindo a adoção de redes para capturar os tubarões.
Ainda que seja compreensível tal desejo, foi colocado para
eles que infelizmente, quando se trata da natureza, uma solução
imediata e confiável não existe. Como bem disse George
Burgess, que é o curador do Arquivo Internacional de Ataques
de Tubarões, pode-se com soluções de médio
prazo amenizar o problema e diminuir o número de ataques,
mas acabar com eles é impossível. Ao entrar no mar,
está-se aventurando em um ambiente selvagem onde o tubarão
está em seu meio e ocupa o topo da cadeia alimentar.
O uso de redes de proteção,
redes de exclusão, ou mesmo redes rígidas nas aberturas
das áreas protegidas por arrecifes, foram, de forma bastante
contundente, desaconselhadas por todos os especialistas, incluindo
o Geremy Cliff, da África do Sul, e o Matt Broadhust, da
Austrália, em cujos países tal medida é adotada
há décadas. Destacaram, como contraproducente, o forte
impacto ambiental e o alto custo de implantação e
manutenção dos equipamentos. George Burgess, dos EUA,
país que não adota essa medida, acrescentou que essas
redes estão ultrapassadas por serem muito antiecológicas,
pois matam peixes, tubarões, golfinhos, tartarugas e outros
animais absolutamente inocentes.
Abro aqui um parênteses para
oportunamente relatar um recente ataque mortal na Austrália
e sua repercussão. Após de ter sido atacado por dois
grandes tubarões brancos no sábado, dia 10 de julho,
um surfista de 29 anos não resistiu aos graves ferimentos
e morreu. Foi o sexto ataque fatal de tubarões em águas
australianas desde 2000. Com o ataque de sábado, foram retomados
os apelos para a colocação de redes nas praias mais
populares. Mas a coordenadora nacional da Sociedade Australiana
de Conservação Marinha, Kate Davey, disse que as redes
são uma reação excessiva e que elas põem
em risco a vida de outros animais, como baleias, golfinhos, tartarugas
e focas. Em vez disso, ela defende que os banhistas e surfistas
deveriam ser ensinados sobre os riscos representados por tubarões.
"O que precisamos de verdade é uma campanha de educação
para ensinar as pessoas como conviver com os tubarões."
O irmão da vítima apelou às autoridades para
que poupem a vida dos animais. Para ele, "matar os tubarões
seria um ato de vingança sem sentido".
A pesca seletiva com fins científicos,
que faz parte do programa de pesquisa e monitoramento dos tubarões,
e já estava provocando muita polêmica na mídia
e em diversos grupos de interesse, antes mesmo do Workshop, como
não podia deixar de ser, gerou discussões em torno
de suas motivações. As razões para tais medidas
foram apresentadas por Fábio Hazin, diretor do departamento
de pesca da UFRPE, e aceitas por todos os especialistas-palestrantes.
Concluiu-se que a pesca seletiva, cujo objetivo não é
absolutamente caçar e extinguir os tubarões, é
inevitável para se obter um maior conhecimento local das
espécies envolvidas nos ataques __ cabeça-chata e
tintureira. Geremy Cliff, baseado em experiências na África
do Sul, recomendou a utilização de anzóis maiores
para tentar selecionar ainda mais o alvo da pesca. Sua recomendação
foi aceita pelo Cemit. Eu recomendei tirar o espinhel do fundo e
colocá-lo à meia-água, já que as espécies
até então capturadas eram quase todas bentônicas
(com hábitos de fundo) e o objetivo da pesca era capturar
espécies pelágicas. Com o uso do espinhel à
meia-água, em princípio, evita-se a captura dos peixes
de fundo. Minha recomendação também foi aceita
pelo Cemit.
Com relação à
polêmica da pesca seletiva, ainda que não seja o caso
das espécies alvos, vale elucidar que o IBAMA, o CITES e
a IUCN, proíbem ou recomendam a proibição da
captura das espécies ameaçadas de extinção,
exceto para fins científicos. É importante também
esclarecer que a previsão de captura máxima em um
ano é de até 100 indivíduos, número
que está longe de ser impactante sobre as respectivas populações
locais.
A recomendação unânime
dos especialistas foi dar ênfase nas campanhas de educação
e conscientização da população, com
foco nos jovens e crianças e, especialmente, para a parcela
mais carente e com acesso restrito aos meios de comunicação,
já que à ela pertence boa parte das vítimas
de ataque. Na verdade, o Cemit já tinha programado (e foi
executado no sábado, dia 10) a distribuição,
por estudantes, de milhares de folhetos nas praias do Pina, Boa
Viagem e Piedade. Nesses folhetos estão assinaladas as áreas
sujeitas a ataques de tubarão e as orientações
pertinentes.
Fiz
ainda duas recomendações que não foram aceitas
pelo Cemit, por motivos diversos que valem ser comentados.
1
- Recomendei, como também o fez Geremy Cliff, cancelar
a proibição do Surf. Além de sabermos que,
para os adolescentes, o que é proibido é ainda melhor,
essa recomendação também se baseou no fato
que os últimos ataques a surfistas ocorreram nos horários
em que os guardas-vidas, responsáveis pela fiscalização
e apreensão das pranchas, não estão mais atuando.
Ao evitar a presença dos guardas-vidas, os surfistas se colocam
em risco de não haver ninguém para resgatá-los
em caso de ataque. O Comit não aceitou essa recomendação
por achar que os custos financeiros e de imagem para a Cidade de
Recife seriam muito altos caso permitissem o surf e o número
de ataques aumentassem.
2
- Recomendei que o Governo do Estado destinasse mais verba
para o Corpo de Bombeiros, para que o mesmo pudesse comprar mais
equipamentos e dar um treinamento mais intensivo de resgate e socorro
médico. Minha recomendação se baseou em dois
dados: 1º - as estatísticas mostram um índice
de fatalidade de 36% em Boa Viagem. Comparado com a média
mundial, de 12%, e com o índice dos EUA, de apenas 2%, percebe-se
que a taxa de fatalidade em Recife é, disparada, a mais alta
do mundo. 2º - sabemos, por comparação com a
Flórida, campeã mundial em número de ataques
(311 entre 1990 e 2003), porém com o mais baixo índice
de fatalidade (1%), que muitas vezes a diferença entre a
vida e a morte da vítima de ataque está na agilidade
do resgate e no correto atendimento de primeiros-socorros. É
claro que a compra de equipamentos de proteção individual
(shark shield) para os salva-vidas efetuarem um resgate também
é importante, mas está-se falando aqui de equipamentos
e treinamentos para o resgate e os primeiros-socorros das vítimas
de ataque. Por incrível que pareça, o Comit não
aceitou a recomendação porque o próprio pessoal
do Corpo de Bombeiros alegou estar muito bem treinado e equipado
e, por essa razão, prescindiria de mais verba. É a
única entidade pública que eu conheço que recusa
um aporte de recursos adicionais.
Cabe
aqui uma última posição pessoal a respeito
da discussão envolvendo opiniões e interesses conflitantes.
Há uma enorme diferença entre estar no meio do problema
e fora dele. Criticar as medidas tomadas pelo Cemit, estando a quilômetros
de distância, é muito fácil e confortável.
Ao participar das discussões, inserido no meio e sofrendo
as mesmas pressões, tem-se a verdadeira dimensão do
problema enfrentado e da real responsabilidade de se enunciar e
defender uma posição, ainda que essa não seja
a mais popular.
*Marcelo Szpilman, Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com
Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE)
pela COPPE/UFRJ, é autor do livro GUIA AQUALUNG DE PEIXES,
editado em 1991, de sua versão ampliada em inglês AQUALUNG
GUIDE TO FISHES, editado em 1992, do livro SERES MARINHOS, editado
em 1998/99, do livro PEIXES MARINHOS DO BRASIL, editado em 2000/01,
do livro TUBARÕES NO BRASIL, editado em 2004, e de várias
matérias e artigos sobre a natureza, ecologia, evolução
e fauna marinha publicados nos últimos anos em diversas revistas
e jornais e no Informativo do Instituto. Atualmente, Marcelo Szpilman
é diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor
e Redator do Informativo do citado Instituto e membro da Comissão
Científica Nacional (COCIEN) da Confederação
Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS). |