Os
Rumos da Pesca Predatória
Por
Felipe Daudt*
A
pesca predatória no Brasil é incontida. Não há
espaço, para relatar a pesca marginal em todo território
nacional, mas alguns exemplos notáveis e que refletem o panorama
geral, podem ser encontrados no Estado do Rio de Janeiro.
Essa
atividade indesejável já dizimou os cardumes de sardinha
da Ilha Grande, onde havia uma das maiores concentrações
do planeta. Também ali, uma canoa caiçara, equipada
com uma rede simples e rudimentar, era capaz de capturar 60 quilos
de camarão num bom dia de pescaria. Hoje, uma traineira grande
não consegue em uma semana realizar esse feito. E por falar
em traineiras grandes e relativamente bem equipadas, é surpreendente
o desembaraço e a tranqüilidade com que elas se aproximam
de nossas praias para dar início à sanha predatória,
numa distância considerada perigosa e proibida por lei. Se
bobear, as redes de parelha e tresmalho arrastam até os banhistas
incautos.
De
Parati, no Sul do Estado, à Atafona, ao Norte, a predação
é irrefreável e os métodos de pesca mais perniciosos
são a dinamite e o arrasto. Os peixes sumiram até
do arquipélago das Cagarras, das Tijucas e das ilhas Maricás.
Não faz muito tempo, essas áreas eram consideradas
por todos, inclusive pelos pescadores submarinos internacionais,
como um dos maiores redutos de espécies nobres do continente
americano.
| Em
Cabo Frio e Arraial do Cabo, zonas de ressurgência marinha,
onde supostamente deveria haver pescado em abundância,
há pescadores artesanais que desistiram da profissão,
em virtude da vertiginosa queda dos estoques nas três
últimas décadas. Os grandes meros, badejos, robalos
e garoupas, que habitavam em grande quantidade toda a baía
da Ilha Grande, incluindo Parati e Sepetiba, não são
mais encontrados nos mercados. Além da pesca nas ilhas,
costões e nos parcéis mais expostos, com o advento
do GPS, os lajeados antes difíceis de se localizar, são
facilmente explorados. O mergulho é profissional e realizado
com garrafas e compressores. Acredite se quiser, mas esses peixes
de toca, encontrados nas peixarias de Angra dos Reis, vem todos
de fora. |
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Mais
incrível ainda é o fato de que inexiste, ao longo
de todo o litoral brasileiro, uma guarda costeira. E quando o assunto
é fiscalização, veremos de que modo o IBAMA,
do Rio de Janeiro, embora tenha profissionais competentes, se encontra
no mais absoluto estado de penúria e abandono. No ano de
1997, durante o período em que mantive uma coluna de pesca
e meio ambiente no JB Online, havia funcionários sem ter
o que fazer por falta de combustível para abastecer o carro
e realizar a apreensão de pássaros e outros animais
silvestres. Quando solicitei ao mesmo órgão uma informação
sobre o número de pescadores amadores que pagaram pela licença
de pesca (deveria estar registrado nos arquivos), não souberam
responder e tive que apelar para o escritório de Brasília.
Trocando em miúdos: Brasília é que tinha a
relação de licenças emitidas no Estado do Rio
de Janeiro.
A
sanha dos predadores continua célere e cada vez mais preocupante;
não encontra limites, fronteiras nem punição.
Em São Fidélis, no baixo curso do rio Paraíba
do Sul, foi extinta a tradicional festa da lagosta, que praticamente
desapareceu da região. No rio do Imbé, no Parque Estadual
do Desengano, em Campos, a preocupação maior é
exterminar de vez com a piabanha (Brycon insignis). Lá, é
utilizada uma modalidade de pescaria conhecida como "batida",
que consiste em armar duas redes de espera num ponto escolhido e
subir o rio para empurrar os cardumes "batendo" na água
com paus e galhos. A segunda rede é posicionada para capturar
as saltadoras piabanhas __ espécie ameaçada de extinção
__ que escapam da primeira armadilha. Isso tudo, dentro de um Parque
Estadual.
Os
ambientes aquáticos definham, nas barbas dos órgãos
responsáveis, tanto pela fauna e pela flora, como pelo controle
da poluição, por falta de gente e recursos. As prefeituras
de 90% dos municípios também não ajudam e jamais
se ocuparam com seriedade do meio ambiente terrestre e aquático,
embora a legislação brasileira seja rígida
para com os infratores. Para aqueles que duvidam da precariedade
com que os bons profissionais responsáveis pelos setores
ambientais mais estratégicos trabalham, recomendo visitar
os escritórios regionais do IEF, IBAMA, FEEMA e Batalhões
Florestais, que não possuem dinheiro nem para comprar um
mobiliário decente e melhorar o aspecto das suas sedes.
Além
da predação, a truculência de uma maneira geral
é extensiva àqueles que assistem ao dia a dia da pesca
no Brasil. As denúncias devem ser feitas com o maior cuidado
e, de preferência, ao Ministério Público. Há
relatos de retaliações sérias, que são
resolvidas à bala. Ameaças de morte tornaram-se corriqueiras
e existem casos de cidadãos que tiveram suas casas saqueadas
e incendiadas. Há uma Máfia bem organizada e sabemos
que os órgãos públicos não estão
equipados para uma fiscalização eficiente, que dirá
para uma ação policial.
Nas
bacias dos rios Amazonas, Araguaia, São Francisco, Paraná,
Paraguai e em todo o litoral, do Oiapoque ao Chuí, a coisa
é séria e absolutamente igual.
O
Brasil é dos poucos países do mundo que permite a
pesca profissional em suas águas interiores. Existem algumas
exceções, todas pontuais, mas dignas de louvor. No
rio São Benedito, por exemplo, lá para as bandas de
Alta Floresta, o dono de uma pousada conseguiu coibir a pesca predatória
através de um projeto de lei. É o único rio
brasileiro onde todos os pescadores amadores cumprem a obrigação
de devolver o peixe para a água. Não é à
toa que o São Benedito continua como um dos rios mais piscosos
do país e a pousada do Salto Thaimaçu vive repleta
de estrangeiros. Parece que o Estado do Mato Grosso do Sul também
está fazendo alguma coisa nesse sentido.
Na
América do Norte a pesca esportiva já é um
grande negócio. O número de empregos mantidos pela
pesca recreativa nos EUA atinge a cifra de 1,2milhão de pessoas,
porém o número de empregos mantidos pela pesca comercial
é de apenas 170.000 (dados da International Gamefish Association,
2002). Enquanto o preço médio de uma captura comercial
em um país como o Canadá gira em torno de $ 28 cents/lb,
na pesca esportiva os dividendos por libra de peixe devolvido ao
seu habitat são incalculáveis. Segundo o National
Survey of Fishing, o faturamento anual com o turismo da pesca esportiva
nos EUA ultrapassa $70 bilhões de dólares, gastos
na compra de equipamentos, barcos, estadia em hotéis, licenças
de pesca e cobrança de impostos. Para que tudo isso funcione
direito, existe o respeito, a fiscalização rígida
e um eficiente controle dos estoques.
Voltando
à nossa triste realidade, poderíamos reverter rapidamente
a situação e começar uma boa estratégia
de combate à pesca predatória apenas controlando o
mercado comprador e consumidor. Conscientizar a população
e impedir, nas feiras e nos mercados, a compra de exemplares capturados
abaixo do tamanho mínimo permitido por lei e das espécies
ameaçadas, é uma maneira de reduzir drasticamente
um problema que só nos traz angústia e aflição.
A repressão, legítima e necessária, aos pequenos
compradores e aos grandes atacadistas, todos considerados co-responsáveis
pela predação, seria outra excelente sugestão.
Basta vontade política.
*
Felipe Daudt, Geógrafo e ambientalista, foi colunista do
JB Online e articulista das revistas Pescando, Pesca Esportiva,
e das eletrônicas Fine Fishing e The Fishing Hole. Atualmente
escreve no jornal carioca Gazeta da Pesca e é coordenador
de novos projetos e assessor de imprensa do Projeto Piabanha. E-mail:
felipedaudt@yahoo.com.br
Principais
impactos negativos na produção pesqueira
Além
da pesca predatória, um dos maiores inimigos da sustentabilidade
da atividade são os impactos negativos gerados pelo homem
sobre os ecossistemas estuarinos e litorâneos. Estes estão
causando o desaparecimento ou a redução do número
de indivíduos de algumas espécies. Desta forma o estoque
de pescado fica impedido de se recompor, colocando em risco a sobrevivência
das comunidades pesqueiras do litoral.
Dentre os principais impactos negativos ao meio ambiente diretamente
prejudiciais à sua atividade, os próprios pescadores
destacam:
Corte de mangue para instalação de viveiros e barragem
da água da maré pelas obras de infra- estrutura dos
projetos de carcinicultura, isolando trechos do manguezal e ocasionando
a morte da vegetação.
Aterros e desmatamento de mangues.
Poluição dos rios e estuários por esgoto doméstico
(falta de saneamento básico), resíduos industriais
e agrotóxicos utilizados na agricultura.
Circulação
de embarcações motorizadas (lanchas e jet skis)
nos estuários, que afugentam os peixes, colocam em risco
a vida dos pescadores e ameaçam a reprodução
das espécies que realizam parte do seu ciclo de vida
nos estuários.
Invasão de áreas de praia.
Retirada de areia dos rios. |
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Ajuda
internacional em prol da pesca brasileira
Peixes
como o pacu, o dourado, o pintado e outros encontrados em rios
brasileiros estão ganhando apoio internacional para garantir
sua sobrevivência. Estas espécies vêm sendo
catalogadas e suas ovas conservadas em um banco de sêmens
criado pela ONG canadense World Fisheries Trust. O objetivo
do projeto é preservar peixes migratórios de quatro
das principais bacias hidrográficas do país, em
rios como o Paraná e Taquari, no Pantanal do Mato Grosso
(Bacia Tocantins-Araguaia), e o São Francisco.
De uma forma geral, a iniciativa pretende reduzir os efeitos
danosos no habitat dos peixes migradores causados principalmente
pela construção de barragens para usinas hidrelétricas.
Técnicos brasileiros foram treinados por especialistas
ligados à ONG para realizar a conservação
genética e obtiveram tecnologia para a impressão
do DNA e para promover a larvicultura dos peixes. Entre os planos
do projeto está a formação de uma rede
brasileira de conservação genética de espécies
economicamente importantes que correm risco de sobrevivência
por impactos ambientais danosos. |
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