Informativo do Instituto

Informativo 60 - Março / Abril de 2005

Recifes Artificiais
















Texto de Patrícia Spina Salem*

Recifes artificiais podem ser definidos como estruturas submersas, que, quando dispostas no ambiente marinho fornecem substrato para a colonização de diversos organismos, criando um ambiente artificial similar aos recifes naturais. Várias espécies de peixes de importância econômica e ecológica utilizam estes hábitats como abrigos contra predadores, áreas de crescimento, reprodução e alimentação.
Fazendo um paralelo, os recifes naturais são ambientes marinhos formado por estruturas de constituição rochosa ou pela sobreposição de organismos, apresentando grande abundância e diversidade marinha. Por abrigarem uma extraordinária variedade de plantas e animais são considerados como o mais diverso habitat marinho do mundo, e por isso mesmo, possuem grande importância econômica, pois representam a fonte de alimento e renda para muitas comunidades. Uma em cada quatro espécies marinhas vive nos recifes, incluindo 65% dos peixes. Os recifes estão para o ambiente marinho da mesma forma que as florestas tropicais estão para os ambientes terrestres, ou seja, os maiores centros de biodiversidade do planeta.

Apesar de toda sua importância, os ambientes recifais em todo o mundo vêm sofrendo um rápido processo de degradação através das atividades humanas. Diante desse problema urge a necessidade de proteger essas áreas, recuperar áreas que apresentem sinais de degradação e até utilizar esses recursos marinhos de maneira sustentável. Os recifes artificiais estão sendo utilizados como mecanismo para alcançar esse objetivos e estão contribuindo em muitos países, não só para a conservação da biodiversidade marinha mas também para os setores sócio-econômicos.

Histórico

Apesar da utilização desses recifes ser uma prática aparentemente recente no Brasil, existem registros históricos dessa atividade por várias tribos indígenas de nossa costa desde o século XVII. Os relatos apontam estruturas feitas de galhos, bambu, folhas e pedras, chamadas pelas comunidades estuarinas e ribeirinhas de “Marambaias”. Acredita-se que as Marambaias eram iniciativas de pescadores artesanais, que através da experiência ao longo do tempo identificaram a eficiência do material lançado ao fundo marinho, como fator de agregação de organismos de diversas espécies.
O uso de recifes artificiais para promover o desenvolvimento pesqueiro também não é novidade em outros países. Há indícios de que tribos polinésias, sul e centro americanas, há séculos, já desenvolviam “pesqueiros artificiais” com uso de troncos de arvores e pedras, para atraírem peixes. Esses pesqueiros eram as versões antigas do que foi denominado de “atratores”, evoluindo posteriormente para “recifes artificias”.
Os orientais já usufruem dos recifes artificiais há mais de 300 anos. O cultivo de moluscos (ostras e mariscos) e de macrolagas baseia-se no mesmo principio e tem sido aplicado com sucesso, principalmente em países asiáticos. Atualmente países como Japão, Taiwan, Canadá, Estados Unidos, França e Portugal, são lideres na pratica de manejo sustentável dos recursos costeiros através da implantação de sistemas de recifes artificiais.

Para que servem?

Os recifes artificiais apresentam uma variedade de funções, beneficiando não só o meio ambiente mas também a população em geral. Ao ser colonizado ele imita a natureza biológica do ecossistema marinho, agregando biomassa e biodiversidade no novo habitat. Esse novo habitat pode ser criado até em ambientes arenosos e lamacentos que em condições naturais não apresentariam possibilidades de suportar tal ecossistema. Os recifes podem também recuperar ambientes degradados, provendo um novo ambiente para a colonização de organismos marinhos. O setor turístico também se beneficia destas estruturas submarinas, pois elas formam verdadeiros oásis para mergulhadores. Muitos afirmam que esse ecossistema novo precisa estar acessível ao homem para ser utilizado de todas as formas que os ecossistemas naturais também são. Ou seja, o recife artificial pode também ter forte aplicação sócio-econômica.

Na verdade percebe-se, atualmente que a maioria desses países utiliza a pratica de recifes artificiais visando criar áreas de exclusão contra o impacto da pesca predatória e como atratores artificiais de fauna marinha, incrementando a produtividade pesqueira da frota artesanal local. Por exemplo, a pesca de arrasto é apontada mundialmente como a pesca mais predatória. É muito pouco seletiva, produzindo um volume substancial de captura de organismos sem interesse comercial (“by-cacth”), mas fundamentais para o equilíbrio marinho e, em última instância, na preservação dos próprios estoques comerciais. Os recursos explorados pela pesca de pequena escala estão cada vez mais exauridos devido ao crescente impacto humano na área costeira.

Nos últimos 30 anos, a região costeira vem sendo gradativamente ocupada pelo desenvolvimento industrial e urbano tendo conseqüentes processos de erosão e poluição no ambiente marinho, enquanto que as áreas de plataforma estão sujeitas à exploração pesqueira industrial e de pequena escala, sem maiores preocupações com a sustentabilidade dos recursos. A pesca de subsistência, base da economia de centenas de famílias de pescadores, vem sendo muito prejudicada pela competição desigual imposta pela frota industrial que vem operando em águas cada vez mais rasas e danificando seus petrechos de pesca. Os pescadores artesanais formam a classe mais representativa e depauperada da zona costeira, necessitando de alternativas urgentes para manutenção de sua cultura e atividade econômica.

Benefícios sócio-econômicos e ambientais dos recifes artificiais

- Apoio à pesca artesanal e de subsistência por meio do incremento da produtividade e da geração de alternativas de emprego e renda.
- Valorizar e conscientizar o pescador artesanal quanto a importância do desenvolvimento sustentável dos recursos naturais.
- Criação de novas fronteiras aqüícolas, com o desenvolvimento da maricultura em mar aberto.
- Auxílio ao ordenamento pesqueiro e costeiro através da delimitação de áreas de exclusão de arrasto, zonas de recuperação ambiental, reservas extrativistas, e reservas de desenvolvimento sustentável, com foco na pesca.
- Incentivar o desenvolvimento do turismo ecológico subaquático.
- Aumento e conservação da biodiversidade marinha.
- Recuperação de hábitats degradados na zona costeira.
- Proteção a orlas e regiões costeiras.
- Desenvolvimento de pesquisa científica.


Do que são feitos?

São diversas as estruturas que podem ser utilizadas para formar um recife artificial. Alguns dizem que qualquer substrato consolidado submerso no mar pode ser visto como um recife artificial. Os recifes vem sendo submersos pelo mundo afora como estruturas de cimento, pneus, carcaças de navios e rebocadores, pilares de piers, sucatas de bases petrolíferas etc. Mas na realidade para se obter recifes artificiais bem sucedidos a escolha do material apresenta-se como fator fundamental.
Atualmente com a grande demanda dos recifes artificias o planejamento, e a construção tem desenvolvido uma ciência própria. Pesquisadores investigaram formas, desenhos e arranjos que maximizassem a produtividade e a biodiversidade em condições ambientais específicas. Os materiais, a durabilidade e estabilidade vem sendo adequados ao ambiente marinho, tendo em vista a diminuição de custos, impacto ambiental e aumento dos benefícios dos sistemas artificiais. Por exemplo, pesquisadores japoneses projetam e constróem recifes artificiais que diferem em localização, forma e materiais, com o objetivo de atrair determinadas espécies de peixes, pois o material com que são construídos também influencia a resposta da comunidade a se desenvolver no recife.
Foi diagnosticado, por exemplo, que o recrutamento de corais em superfícies mais rugosas (como concreto) é superior ao recrutamento em superfícies mais lisas (como borracha), e superfícies mais rugosas possibilitam também a maior variedade de microhabitats a serem explorados principalmente por invertebrados e vertebrados de pequeno porte.
Atualmente o material considerado mais adequado para contruir recifes artificiais é o concreto, não somente por apresentar maior aceitação de organismos colonizadores mas também devido à sua estabilidade no assoalho marinho, à não liberação de elementos poluentes e à possibilidade de moldá-lo com alta similaridade ao hábitat rochoso ou coralino natural. No Brasil a Votorantins Cimentos, junto com a UFPR desenvolveu um cimento especial, de baixa alcalinidade, com grande capacidade de resistir à agressividade da água do mar e que permite a rápida colonização de microorganismos marinhos. Além do apoio técnico a empresa doou 72 toneladas desse cimento para a implantação de recifes artificiais. Existe também uma tecnologia americana muito difundida no uso de recifes artificiais que são os Reef Balls (bolas de recifes), que são verdadeiros iglus construídos com cimento especial. Além deles apresentarem características desenvolvidas especialmente para a pratica de recifes artificias eles apresentam buracos que servem de abrigos para a vida marinha e auxiliam a fixação no fundo marinho.

Cuidados importantes para o sucesso dos recifes artificiais

Apesar da comprovada eficiência dos recifes artificiais, alguns casos de insucesso podem ser encontrados na literatura especializada. Os fracassos estão geralmente associados à falta de objetivos claros na concepção de projetos e à falta de critérios na execução dos mesmos. Os vários estudos científicos nessa área indicam a importância dos conhecimentos ambientais prévios das áreas de instalação, do planejamento dos tipos de estruturas e seus materiais, do monitoramento ambiental e pesqueiro, e da implementação de planos de manejos com o envolvimento das comunidades.

Para exemplificar houve um caso em Pernambuco onde o lançamento de 3 (três) rebocadores com cerca de 30 metros cada, em frente à cidade de Recife, demonstrou falta de critérios de limpeza, descontaminação e preparo, ocasionando atraso significativo na colonização de organismos marinhos, possível contaminação dos peixes por hidrocarbonetos e metais pesados, riscos aos usuários de mergulho amador (restos de vidros, passagens inadequadas e peças contundentes). O planejamento adequado e o preparo do material a ser utilizado é imprescindível para atingir os resultados esperados sem impactar o meio ambiente. Precisamos seguir alguns protocolos já utilizados por países como o Canadá e os Estados Unidos que seguem criteriosamente orientações específicas para o preparo e lançamento de navios descomissionados, incluindo protocolos de limpeza, descontaminação e de preparo.

Além de alguns insucessos dessa pratica, alguns pesquisadores vêem os recifes artificiais como algo controverso alegando que esses novos ambientes em um primeiro momento atrai os peixes, concentrando os nessas áreas e deixando os mais vulneráveis a exploração. Afirmam, que a única maneira de minimizar isso é a presença de uma fiscalização intensa nessas áreas.

De qualquer maneira, de um modo geral muitos países usufruem dessa pratica a algumas décadas apontando os recifes artificias como excelente instrumento de conservação ambiental e gerador de benefícios sócio econômico. A biodiversidade e a grande biomassa de peixes e invertebrados encontrada nesses recifes artificiais, aliada à substituição de práticas de pesca pouco seletivas pelo uso de petrechos mais conservativos, mostra o grande potencial de projetos desta natureza. Aparentemente o sucesso dos recife artificias é tão evidente que até a FAO (Food and Agriculture Organization ONU) recomenda a utilização de recifes artificiais pelos países costeiros interessados em explorar mais adequadamente seus recursos marinhos.

Projetos

Atualmente existem inúmeras iniciativas em relação a implantação de recifes artificiais, destacando - se algumas:

ECOPLAN (RAM)

O maior projeto de recifes artificiais no Brasil é o Programa de Recifes Artificias (RAM), desenvolvido pelo Instituto Ecoplan e entidades colaboradoras, entre elas o IBAMA e a Universidade Federal do Paraná (UFPR). Desde 1997 vem instalando recifes artificiais no costa do Brasil, hoje conta com mais de 2000 estruturas de concretos instaladas incluindo recifes anti-arrastos. O Ecoplan (RAM) já foi premiado nacionalmente e internacionalmente e vem se colocando como modelo de tecnologia, e monitoramento em recifes artificias apresentando excelentes resultados. Desenvolveram tecnologia na construção e instalação de recifes de concreto, utilizando cimento e materiais ambientalmente equilibrados, e desenho específico para cada um dos objetivos do projeto. Mantém uma equipe multidisciplinar atuando nas atividades de produção, instalação e monitoramento dos Recifes.

O Instituto Ecoplan já divulga diversos benefícios, alegando que, além dos sistemas implantados se transformarem em áreas protegidas para espécies ameaçadas como o Mero e o Cherne por exemplo, também trazem benefícios para a pesca sustentável agregando aumento de renda. Os pescadores locais já utilizam os recifes artificiais implantados para a produção de vieiras e mexilhões. Sem contar que se tornaram excelentes áreas de mergulho e pesquisa cientifica, onde teses de mestrado e doutorado estão sendo desenvolvidas, gerando informações cientificas e tecnológicas de grande valor.
http://www.reefball.com/ecoplan/

 

PROMAR

No estado de São Paulo, município de Bertioga, o projeto PROMAR (Proteção de Recursos Marinhos) foi desenvolvido através do Progroma Estadual de Gerenciamento Costeiro, com recursos do Ministério do Meio Ambiente, parcerias com a Marinha e IBAMA, com objetivo de proteger áreas costeiras importantes para o ciclo de vida de espécies e recuperar os recursos pesqueiros da região, degradados pela pesca predatória de arrasto de fundo. No período de 1997 e 2000 foram instalados 200 estruturas de concreto e 90 de aço para recuperação do ecossistema costeiro e exclusão do arrasto de fundo. Os resultados obtidos, mostrados pelo monitoramento dos recifes, têm despertado consciência na população sobre o problema ambiental e motivado a continuidade e ampliação desta iniciativa para regiões vizinhas. Diversos outros municípios do Estado têm mostrado grande interesse, particularmente para coibir a pesca predatória nas regiões mais costeiras e criar áreas de proteção ou de exclusão de pesca.

PROJETO MAR

Fundada em março de 1986 para explorar de forma profissional o mercado do mergulho na capital pernambucana, a operadora e escola de mergulho Projeto Mar, desenvolve e incentiva diversos projetos relacionados com a biodiversidade marinha, estudos de naufrágios e recifes artificias. O projeto já afundou 4 rebocadores na costa de Pernambuco, que hoje abriga uma diversidade marinha espetacular. Esses recifes artificiais são muito visitados por mergulhadores, pesquisadores e se transformou em inspiração para fotógrafos subaquáticos incentivando o Primeiro Simpósio de Naufrágios Artificiais no Brasil.

SEAP

O Programa Nacional de Recifes Artificiais Marinhos, da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca (SEAP), prevê o lançamento de 2.600 de unidades de recifes artificiais ao longo da costa brasileira entre 2005 e 2006. O projeto nacional pretende investir R$5 milhões na alternativa para impedir a pesca de arrasto e recuperar estoques voltados à pesca artesanal. O fundo da baía de Parati, no litoral do Estado do Rio de Janeiro, recebeu recentemente os primeiros recifes artificiais. Cada área de recifes artificiais implantada contará com uma unidade amostral, que será utilizada para pesquisas ambientais. Além de servirem como bloqueio para pesca de arrasto, em muitos dos locais escolhidos os recifes artificiais também servirão como atratores de espécies marinhas. http://www.presidencia.gov.br/seap/

RAMPA

Destacando-se na Praia do Canto-Armação dos Búzios (RJ), um grupo de amigos da cidade desenvolveram estruturas com o formato piramidal para servirem de proteção servindo como obstáculos para a redes der arrasto. Atualmente as barreiras cumprem o seu dever de proteção e se transformaram em ambientes ricos habitados por corais e peixes. http://www.cem.ufpr.br/ram/rampage.htm

Laboratório de tecnologia Submarina da COPPE

Recifes artificiais tem sido uma alternativa para o plano de descomissionamento de estruturas de produção de petróleo e gás, como proposto pela regulamentação da IMO (International Maritime Organization) de 1998. Vinte estruturas, construídas com tubos de aço reciclado usados pela Petrobras na produção de petróleo, funcionarão como viveiros marinhos, estimulando a proliferação de espécies na região. Desenvolvido pelo Laboratório de Tecnologia Submarina da COPPE, em parceria com a Gerência de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da Unidade de Negócios Bacia de Campos da Petrobras, este trabalho tem como parceiros também o Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM) e a Federação de Pescadores do Estado do Rio de Janeiro (FEPERJ). http://www.lts.coppe.ufrj.br/recifes/modules/news/.


* Patricia Spina Salem, é bióloga marinha e coordenadora do Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA), no Instituto Ecológico Aqualung.


Programa Nacional de Observador de Bordo (PRO-BORDO)
para a Pesca de Atuns e afins.

Por: Dr. Paulo Travassos*

A Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (SEAP), da Presidência da República, tem, desde a sua criação em 2003, promovido o desenvolvimento da pesca oceânica brasileira com o objetivo de aproveitar, de forma sustentável, os recursos pesqueiros existentes na nossa Zona Econômica Exclusiva (ZEE) e águas internacionais adjacentes.

Dentre os recursos explorados, os atuns e afins são certamente os mais importantes, em decorrência do elevado valor comercial alcançado pelas diferentes espécies no mercado internacional, assim como pelas possibilidades de incremento da sua produção. Neste contexto, para promover o acompanhamento das operações de pesca da frota atuneira brasileira, a SEAP criou o Programa Nacional de Observadores de Bordo (PRO-BORDO), cujo objetivo maior é o de gerar informações detalhadas sobre esta pescaria, permitindo, assim, (i) a obtenção de um maior conhecimento técnico-científico sobre a pesca e as espécies capturadas, (ii) a implementação de medidas de gestão e manejo dessa atividade e dos recursos pesqueiros explorados e (iii) o desenvolvimento sustentado da pesca de atuns e afins no Brasil.

Atualmente o programa vem cobrindo 100% das embarcações estrangeiras arrendadas (cerca de 50 barcos) que se encontram em operação no País, para as quais a SEAP tornou obrigatória a presença de um observador a bordo, em todos os cruzeiros realizados. Desta forma, desde o início de 2004, cerca de 100 observadores vêm se revezando nos embarques para cumprir esta determinação, atendendo a uma recomendação da Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT), órgão responsável pela gestão desses recursos pesqueiros, da qual o Brasil é membro desde 1969.

Desta forma, os observadores de bordo estão aptos a desempenharem as suas funções, dentre as quais incluem-se os registros das informações relativas à tecnologia de captura empregada, com a descrição detalhada do aparelho e das operações de pesca, assim como do manuseio e beneficiamento do pescado pós-captura. Além disso, os observadores têm a obrigação de registrar os dados diários de esforço de pesca e captura por espécie dos descartes de agulhões e tubarões, coletando também informações sobre as capturas incidentais de aves, tartarugas e mamíferos marinhos. Além de todo este trabalho, os observadores têm contribuído sobremaneira para a coleta de amostras biológicas das principais espécies capturadas, permitindo, assim, melhorar o conhecimento científico desses grandes peixes pelágicos.

É importante mencionar que todas essas informações são avaliadas pelo Comitê Consultivo Permanente de Gestão sobre Atuns e Afins, da SEAP, através de seu Subcomitê Científico, criado para prestar assessoramento técnico e científico ao CPG, bem como à SEAP, no que diz respeito aos diversos aspectos inerentes à pesca desses recursos pesqueiros. Para garantir a qualidade das informações coletadas a bordo durante os cruzeiros de pesca, a SEAP promoveu, em setembro de 2004, em Recife, juntamente com o Departamento de Pesca, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o I Curso de Observador de Bordo para a Pesca de Atuns e Afins no Brasil - Modalidade Espinhel, no qual foram capacitados 40 técnicos para desempenhar a contento a função de observador a bordo de embarcações atuneiras.

Um segundo curso, mais abrangente, uma vez que formará técnicos capacitados a atender a demanda de embarques em qualquer tipo de pescaria oceânica no Brasil (pelágicos e demersais), está previsto para ocorrer em maio de 2005, na UFRPE, em Recife, quando mais 40 profissionais serão capacitados. Desta forma, o PRO-BORDO tem dado uma grande contribuição para a fixação de profissionais como Engenheiros de Pesca, Oceanógrafos e Biólogos Marinhos, oferecendo mais uma opção no ainda restrito mercado de trabalho da área de ciências do mar no País.

No que diz respeito às capturas de espécies de tubarões pelo espinhel, as informações coletadas pelos observadores de bordo (estatística das capturas por espécie, material biológico, descartes, etc.) poderão em muito contribuir para a conservação dos estoques, subsidiando estudos e planos de gestão que venham a ser elaborados pelo Governo (SEAP e IBAMA) ou entidades científicas, como Universidades e a Sociedade Brasileira para Estudos dos Elasmobrânquios (SBEEL), ou mesmo para o Projeto Tubarões no Brasil.


* Dr. Paulo Travassos é Coordenador Técnico-Científico do Pro-Bordo - Modalidade Pesca de Atuns e Afins e professor do Departamento de Pesca e Aqüicultura - DEPAq da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).