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Pingüins: porque estão aparecendo em nossa costa?**

O Rio de Janeiro, uma das cidades prediletas de argentinos em férias, tornou-se também o destino preferido de pingüins provenientes das mesmas bandas. Eles vêm do Estreito de Magalhães, ao sul da Patagônia. São exemplares da espécie Sphenicus magellanicus, chamados de pingüins-de-Magalhães, e já apareceram em quase todo o litoral brasileiro. Mas foi no Rio que essas aves aportaram em maior número até agora. Desde o início do inverno, 240 pingüins já desembarcaram nas praias da cidade. Só 90 sobreviveram. Chegam magros, fracos e desidratados, depois de nadarem os mais de cinco mil quilômetros entre o seu hábitat natural e a costa carioca. Muitos aparecem machucados por mordidas de tubarões ou por hélices de barcos e acabam morrendo. Apesar de serem excelentes nadadores, raramente se afastam muito das zonas costeiras. Alguns indivíduos jovens, provavelmente devido à falta de experiência, são levados por correntes marinhas frias para alto mar e não conseguem retornar. A maioria não sobrevive por muito tempo. Os sobreviventes são levados pelas correntes e chegam exaustos nas costas sul e sudeste do Brasil.

As Aparições

O boom de pingüins não é um movimento migratório natural. Muitas vezes, quando os filhotes pingüins, com menos de um ano de vida, tentam se alimentar e acabam sendo levados por fortes correntes marinhas, como a ACAS (Águas Centrais do Atlântico Sul).
Nos últimos três anos, a visita das aves se intensificou em conseqüência de mudanças climáticas, provocadas, por exemplo, pelas correntes marítimas El Niño e La Niña. Alguns Biólogos acreditam que estas aves vêm se deslocando de sua região a procura de alimento seguindo as correntes e fugindo de predadores. Outros cientistas acreditam que o derretimento das geleiras é uma dentre as principais causas da fuga desses animais de seu território a procura de outros habitats gélidos. A pesquisadora Dee Booersma, da Universidade de Washington, estuda há 18 anos a vida em uma gigantesca aglomeração de pingüins-de-Magalhães em Punta Tombo, no sul da Argentina. Desde o ano passado, Dee vem observando uma dramática ruptura no equilíbrio da colônia. “Nunca vi tantos animais adultos morrendo e deixando filhotes a míngua”, disse a cientista ao jornal The New York Times. “Estima-se que 30% da população local tenha sido dizimada. O grande vilão da mortandade é o aquecimento no clima do planeta”.
Mesmo assim não pode-se afirmar com certeza qual o verdadeiro motivo do aparecimento dessas aves em nossa costa sem um bom trabalho de observação. De acordo com o professor Gilberto Manzoni, coordenador do Centro de Recuperação de Aves Marinhas da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), a perspectiva de vida é pessimista para o animal fora do seu habitat natural. Caso o animal permaneça longe da corrente fria, pode sobreviver por cerca de 30 dias. O procedimento natural, quando o centro encontra uma dessas aves, é lavar para retirar óleo incrustado nos órgãos, hidratar com soro e somente alimentar depois de 24 horas. Depois o animal é liberado em uma corrente marítima fria para retornar ao Sul.
No Rio de Janeiro também é feito um trabalho de recuperação destas aves, que muitas vezes chegam debilitadas com mordidas de predadores ou simplesmente de cansaço e fome. Com tantos pingüins chegando às praias, o zoológico já criou até um “pinguinário”. Os animais dividem com um elefante marinho um grande lago e uma minicaverna com ar-condicionado, para os dias mais quentes do verão. No resto do ano, a água do lago é suficiente para refrescá-los. Em Niterói, região metropolitana do Rio, também foi criada uma área especial para estes animais que aparecem também nas praias da cidade, depois de alimentados e tratados, eles seguem para o Museu Oceanográfico da Universidade Federal de Rio Grande (RS) para serem devolvidos ao mar.


Como proceder ao encontrar o animal

Os pingüins são animais conhecidos por seu carisma __ estão presentes em desenhos animados e bibelôs de geladeira __ mas não podemos nos esquecer que são animais selvagens e habitam as regiões onde a presença do homem não é muito comum. Como são dóceis, muitos pingüins permitem que os banhistas se arrisquem a levá-los para casa. “Teve gente que chegou aqui com o animal num isopor cheio de gelo. Uma senhora guardou o pingüim dentro da geladeira”, conta a bióloga Gabriella Remy. Ela explica que, como estão muito debilitados e subnutridos, eles não suportam o frio. Tudo o que precisam é ficar quietos e aquecidos. Os banhistas que se habilitam a “salvar” as aves debilitadas encontradas na areia da praia ou nos costões devem contatar o grupamento marítimo ou o corpo de bombeiros para que os mesmos levem a ave para um estabelecimento competente, que dará o tratamento adeqüado à ave.

Hábitos e Comportamento

Os pingüins são aves tipicamente marinhas que não voam. Pertencem à família Spheniscidae, que possui 16 espécies que se distribuem somente no hemisfério sul. Habitam os continentes e ilhas situadas em regiões frias, subtropicais ou mesmo tropicais, como é o caso da espécie Spheniscus mendiculus que vive nas ilhas Galápagos. Na terra do fogo e ilhas próximas ocorrem quatro espécies de pingüins, sendo mais freqüentes e numerosos os pingüins-de-penacho-amarelo (Eudyptes Crestatus) e os pingüins-de-Magalhães (Spheniscus magellanicus).
Estas aves vivem em colônia na terra, mas suas penas são altamente especializadas à vida aquática __ são cobertas por uma camada de de gordura e lhes conferem proteção contra o frio extremo. Os machos geralmente ajudam na incubação dos ovos (2 ou 3 em algumas espécies), que são colocado em um buraco ou em um ninho de pedra. Após o nascimento, os filhotes são agrupados em “creches”. Como não podem buscar o alimento por conta própria, até que tenha tamanho suficiente, são os pais que capturam os peixes que irão alimentá-los.





** Texto: Leonardo Gomes de Souza (biólogo marinho). Fontes: Folha OnLine, Revista - Época e Coleção-Jacques Cousteau.