|
Pesca
em alto mar
Grandes peixes pelágicos como os atuns, peixes
de bico e alguns tubarões percorrem distâncias
literalmente oceânicas durante suas longas vidas.
Algumas espécies, como o marlim azul (Makaira nigricans)
podem viver mais de uma década e chegam a pesar
800 quilos. O deslocamento desses peixes está principalmente
associado à busca por alimento, cuja distribuição
está, por sua vez, intimamente relacionada com
o movimento das massas de água. Os grandes pelágicos
são portanto recursos que vagueiam entre o alto
mar e as zonas econômicas exclusivas de vários
países. Esta característica faz com que
o bom gerenciamento sobre o uso desses recursos pesqueiros
seja uma tarefa a ser conduzida através da cooperação
internacional.
Com esse pensamento, reuniram-se no Rio de Janeiro, em
1966, representantes de dezessete países-membros
das Nações Unidas que pescam no Oceânico
Atlântico para discutir metas e estratégias
de pesca e conservação para esses peixes.
Um dos resultados desta reunião foi a criação
da Comissão Internacional para a Conservação
dos Atuns do Atlântico (ICCAT na sigla em inglês),
um fórum permanente que visa regular a exploração
dos grandes peixes pelágicos nesse oceano. Desde
então, representantes destes países vêm
se reunindo e agregando outros participantes. Hoje em
dia, este fórum conta com trinta e oito países
distribuídos em todos os continentes.
Uma das questões que vem sendo abordada nos encontros
da ICCAT diz respeito à captura de tubarões,
animais especialmente frágeis do ponto de vista
pesqueiro. Características biológicas como
crescimento lento, maturação sexual tardia
e número reduzido de filhotes fazem com que os
modelos normalmente utilizados para o gerenciamento das
pescarias tradicionais não sejam aplicáveis
aos tubarões, o que torna a administração
desta atividade uma tarefa extremamente difícil.
Pode-se até dizer que a sustentabilidade da exploração
de tubarões é improvável, pois os
seus estoques requerem mais tempo para recomporem-se do
que a pesca está normalmente disposta a dar. E
de fato, assim apontam recentes investigações
conduzidas por um comitê de especialistas do ICCAT.
Segundo estas investigações, a biomassa
capturada de diversas espécies de tubarões
está acima do máximo sustentável.
Hoje em dia captura-se mais de 30.000 toneladas de tubarão
azul (Prionace glauca) entre animais aproveitados e descartados
somente no Oceano Atlântico. Considerando que pescar
além do máximo sustentável significa
correr o risco de levar as populações ao
colapso e a pesca à falência, medidas mais
severas fazem-se necessárias. |
A
grande maioria das capturas de tubarões é
resultado tanto de atividade direcionada quanto acidental
dos barcos espinheleiros, que utilizam o espinhel como
aparelho de pesca. Hoje em dia esses barcos pescam a profundidades
de mais de 600 metros sobre o talude continental. Novas
tecnologias levam anzóis onde antes estes não
chegavam. E o número de anzóis ligados a
longa linha principal continua aumentando.
Segundo o comitê de especialistas, há que
se conhecer melhor a pesca de tubarões pelágicos
para que se possa sugerir ações de controle.
Não há registros históricos suficientes
que permitam estimar com precisão os máximos
sustentáveis. Assim, os especialistas recomendaram
que houvesse um melhor controle sobre estas capturas,
para que se possa avaliar o impacto que a pesca de atuns
e relacionados tem sobre as populações de
tubarões. |
| No
Brasil Os
tubarões não estão entre os principais
recursos pesqueiros brasileiros. O conjunto dos desembarques
de tubarões e raias não representa nem
cinco por cento da pesca marinha nacional. Mas isto
não quer dizer que pesca-se pouco tubarão
no Brasil. A medida do “quanto” está
mais relacionada ao máximo sustentável
de captura que as populações suportam
do que a valores absolutos. Também não
se pode avaliar o quanto se pesca de tubarões
a partir de comparações com as capturas
de outros recursos, haja visto que cada recurso possui
sua própria biologia.
Originalmente capturados na plataforma continental interna
em arrastos e lances de linha e anzol, os tubarões
vêm sendo desde o início da década
de 1980 capturados com maior intensidade também
em espinhéis, e redes de emalhar (ou redes de
espera) não só na plataforma brasileira
como também na zona oceânica. A introdução
destas metodologias pesqueiras em áreas afastadas
de nossa costa coincide com o aumento exponencial das
capturas de muitas espécies.
O aumento das capturas esquentou o debate e acabou fazendo
com que algumas das recomendações adotadas
pela ICCAT fossem incorporadas na legislação
pesqueira brasileira. Aqui o desembarque isolado de
nadadeiras de tubarões, isto é, sem as
respectivas carcaças, fere a portaria n°
121/1998 do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e dos Recursos Naturais Renováveis), segundo
a qual o peso das barbatanas não pode exceder
a 5 % do peso das carcaças.
|
 |
Esta
medida visou amenizar a sanha da matança e do desperdício.
É como se dissesse: já que estamos pescando,
que aproveitemos ao máximo o pescado. Além
disso, a pesca de certas espécies só é
permitida quando observados os tamanhos mínimos
definidos pela recente portaria 73/2003 do IBAMA (veja
tabela abaixo).
Apesar destas leis, aqui assim como em outras regiões
do mundo ainda pratica-se o desembarque isolado de barbatanas.
Criar leis sem uma efetiva fiscalização
efetiva de nada resolve. No país do jeitinho, este
é apenas mais um exemplo do desrespeito às
leis ou mais um exemplo de “lei que não pegou”.
Com a diferença de que neste caso o maior ameaçado
pelas conseqüências negativas desta prática
ilegal é o próprio infrator.
Além disso, há que se esclarecer o quanto
cada país pode pescar de cada espécie para
toda a população. Somente com uma mobilização
generalizada e com uma fiscalização efetiva
sobre estas capturas será possível garantir
a perpetuação destas criaturas extraordinárias.. |
| Espécie |
Nome
comum |
Tamanho
mínino (cm) |
| Galeorhinos
Galeus |
Cação-bico-de-cristal |
110 |
| Sphyrna
Lewini |
Tubarão-martelo-recortado |
60 |
| Sphyrna
Zygaena |
Tubarão-martelo-liso |
60 |
Como se pesca em alto mar?
A
pesca em alto mar é uma atividade que envolve grande
esforço e risco, entendido tanto no sentido da segurança
da tripulação quanto do sucesso da captura. É
um trabalho que, dependendo do tipo de embarcação,
pode durar semanas ou meses no mar, sem retornar ao porto.
Três são os principais apetrechos utilizados na
pesca pelágica em alto mar: vara e isca viva, espinhel
e rede de cerco. As três modalidades são utilizadas
no Brasil, porém a primeira é responsável
pela maior parte das capturas. Nesta modalidade, conduzida por
barcos atuneiros, pequenos peixes vivos (normalmente sardinhas)
são lançados ao mar para atrair os cardumes. A
presença desses pequenos peixes somada à agitação
superficial causada por pequenos jatos de águas acionam
um verdadeiro frenesi alimentar entre os atuns, ocasião
em que estes tornam-se alvos fáceis de anzóis
com iscas falsas ou sem iscas. É uma modalidade de pescaria
com pequenos intervalos de muita ação e longos
intervalos de espera.
Uma outra parte da pesca de grandes pelágicos é
conduzida por espinheleiros, embarcações que lançam
longos cabos contendo centenas de anzóis (veja figura
ao lado). Estes cabos podem ser ancorados ou ficar a deriva
e sua flutuação é garantida pela presença
de bóias fixadas em suas extremidades. Um aspecto absolutamente
indesejável desta modalidade de pesca é a captura
acidental de tubarões, raias, tartarugas e até
mesmo aves. No caso dos tubarões, que costumavam ser
soltos ainda vivos, pois eram considerados “pesca acidental”,
em função da enorme valorização
de suas barbatanas pelo tráfico internacional (China
e Hong Kong), isso não mais acontece. Passaram a ser
também um dos objetivos da pesca (veja fotos na página
ao lado).
Em outra modalidade, o cerco, cardumes inteiros são capturados
de uma só vez por extensas redes de superfície
manipuladas a partir de embarcações apropriadas
(veja figura ao lado). Um resultado negativo desta modalidade
é a captura acidental de pequenos cetáceos.
 |
 |
| Espécies
mais comuns na pesca oceânica brasileira e os
respectivos recordes mundias de captura (em kg).
Albacora-branca ....................
40
Atum-cachorra ....................
197
Albacora-de-laje ............... 176
Atum-azul ........................
679
Agulhão-vela .......................
64
Cavala-wahoo ......................
72
Dourado ................................
40
Bonito-de-barriga-listrada ..... 21
Espadarte ............................
536
Marlim-azul .........................
636
Marlim-branco .....................
83. |
|
Pesca
esportiva oceânica
Nem todo mundo que pesca vive da pesca. Muitos pescam apenas
pelo prazer de pescar, sem depender desta atividade para o
seu sustento. É a chamada pesca esportiva (ou recreativa)
representada em mar aberto pela pesca com vara e molinete.
Para os adeptos deste hobby os grandes troféus são
os peixes de bico, como o agulhão-vela (veja foto ao
lado). Campeonatos são organizados e conduzidos regularmente
ao redor do mundo, muitas vezes com regras bem definidas.
A principal instituição organizadora de campeonatos
é a Associação Internacional de Pesca
Esportiva (IGFA na sigla em inglês), que impõe
uma série de normas para a prática desta pesca
e para o reconhecimento de recordes
Além
da organização de campeonatos, é comum
em algumas regiões a prática do release (pesque-solte),
atividade onde os animais são devolvidos com vida para
o mar.
Barco
espinheleiro em atividade no litoral fluminense.
Observe na foto em detalhe, as barbatanas de tubarões
secando ao sol.
Fotos: Ricardo Zaluar Guimarães |
| |
*
Ricardo Zaluar Guimarães é biólogo
marinho com mestrado e doutorado em zoologia. |
|
|