Informativo do Instituto

O FAUNA AMEAÇADA DE EXTINÇÃO

Matéria publicada no Informativo n° 27 -setembro / outubro de 1999

Texto de Marcelo Szpilman*

Fontes: Gazeta do Povo (PR), 24/08/97 (págs 4 e 5); O Globo (RJ), 22/06/98 (pág. 23); Folha do Meio Ambiente (DF), fev/99 (págs. 12 e 13); Jornal do Brasil (RJ), 27/08/99 (pág. 19)
Causa, efeito e solução. Três palavras imprescindíveis quando o assunto é fauna ameaçada de extinção. As principais causas para a extinção da fauna (o efeito) são mais do que conhecidas __ poluição ambiental, caça e comércio ilegais e desmatamento.
O desmatamento acelerado que atingiu todos os ecossistemas de floresta no Brasil, nas últimas décadas, é apontado, pela quase totalidade dos ambientalistas, como a principal causa do processo de extinção. Seja para expansão da fronteira agrícola, seja para a exploração de madeira, o desmatamento, sem nenhuma avaliação prévia dos prejuízos que poderia causar ao meio ambiente, fez desaparecer centenas de espécies animais e vegetais sem terem sido, ao menos, identificadas.

Somadas às muitas dezenas de espécies vegetais e animais que sumiram da face da Terra antes que tivessemos tempo de conhecê-las melhor e tentar preservá-las, temos um segundo efeito danoso __ a perda da biodiversidade do planeta e, conseqüentemente, a grande diminuição do potencial para pesquisa e produção de novas drogas e remédios para a saúde humana.
A solução, hoje bastante clara para a maioria, é a ampliação e fortalecimento das ações, programas e projetos que envolvem, basicamente, a proteção animal e vegetal, o reflorestamento, a preservação em Unidades de Conservação e a educação ambiental.
Campeão mundial em megadiversidade, o Brasil precisa caminhar mais rápido para encontrar soluções que nos livrem da responsabilidade de sermos um dos grandes contribuintes para uma das maiores extinções de vida em nosso planeta em um curto espaço de tempo, só comparada com a ocorrida há 65 milhões de anos com os dinossauros. Os especialistas afirmam que as atividades humanas poderão, nos próximos 30 anos, ser responsáveis pelo desaparecimento de cerca de 20% das espécies hoje existentes.
A riqueza em biodiversidade, que confere ao Brasil a primeira colocação, é representada por 56 mil espécies de plantas superiores, 524 de mamíferos, 1.622 de pássaros, 468 de répteis, 517 de anfíbios, mais de 3 mil espécies de peixes de água doce e algo entre 10 e 15 milhões de espécies de insetos, fora os peixes e invertebrados marinhos e as plantas inferiores.
É triste constatarmos que as nossas listas oficiais de animais ameaçados já incluem pelo menos 92 mamíferos, 149 aves, 23 répteis, um anfíbio, 9 peixes de água doce, 28 borboletas, 6 libélulas, 1 verme e 1 coral.
Infelizmente, a Mata Atlântica, com pouco mais de 8% de sua cobertura original, representa o ecossistema onde a ameaça de extinção é mais forte __ está em segundo lugar na lista das florestas tropicais mais ameaçadas do planeta. Nela, as listas oficiais consideram sob ameaça 57 mamíferos, 108 aves, 9 répteis, um anfíbio, 32 invertebrados e 63 espécies de plantas. A velocidade de destruição dessa floresta, que exige um reajuste permanente desses números, já é responsável, segundo cálculos recentes de entidades ambientalistas, por mais de 500 espécies ameaçadas de extinção.
Entre os animais, mesmo que sejam poucas as espécies já consideradas extintas, em muitos casos existe um número perigosamente pequeno de exemplares. Nesse aspecto, é interessante comentar a importância que os zoológicos espalhados por todo o mundo representam para a sobrevivência de alguns animais. Não só quando se fala de um individuo, mas, principalmente, quando se trata de uma espécie animal. Algumas espécies só podem hoje ser encontradas exclusivamente nos zoológicos (veja “Superlotação no Zoológico do Rio”, no final).
A fauna de mamíferos sul-americanos, apesar de pobre em formas de grande porte, é altamente diversificada. Por outro lado, são os mamíferos de maior porte, como as onças, jaguatiricas, pacas, queixadas, antas, tamanduás-bandeira e lobos-guará, mais especializados e com baixo potencial reprodutivo, que estão mais sujeitos a desaparecer em um futuro próximo.
Com a destruição da cobertura vegetal, associada a outros fatores como a caça predatória e o comércio ilegal, muitas espécies não encontram mais condições naturais de reprodução e passam a apresentar rápido e acentuado declínio de suas populações.


PARANÁ - Desmatamento provoca a extinção da fauna

O Paraná, no ano de 1995, foi o primeiro estado brasileiro a ter uma publicação específica sobre as espécies de animais ameaçadas de extinção __ o livro “Lista Vermelha de Animais Ameaçados de Extinção no Estado do Paraná”. Esta publicação serviu de base para a também primeira lei estadual de proteção à fauna ameaçada.
Essas duas iniciativas serviram de exemplo para os outros estados brasileiros iniciarem seus estudos da fauna e para oficializar suas propostas de lei estadual.

A lista de animais ameaçados no Paraná tem um total de 218 espécies, sendo 21 mamíferos, 117 aves, 9 répteis e 17 borboletas. Infelizmente, alguns já podem estar extintos.
O desmatamento e a conseqüente destruição dos habitats é a principal causa da ameaça de extinção para os animais, especialmente para as aves que têm uma extreita relação com a vegetação, como está ocorrendo com a gralha violeta (Cyanocorax cyanomelas), um dos mais belos pássaros do Paraná, da mesma família Corvidae da gralha azul (Cyanocorax coeruleus), ave símbolo do estado. Outro exemplo é o papagaio-da-cara-roxa, que vive exclusivamente nas florestas litorâneas do sul de São Paulo e Paraná. Os dados divulgados por órgãos ambientalistas indicam que hoje existem somente 4 mil indivíduos dessa espécie. Por ser restrita ao seu habitat, é uma ave vulnerável, pois qualquer alteração no ambiente pode ser muito arriscado para sua sobrevivência. Mas não é só um problema de desmatamento. Essa espécie está incluída na rota do tráfico de animais silvestres, graças ao péssimo hábito que muitas pessoas têm de criá-las em cativeiro.

RIO DE JANEIRO - Rio tem 257 espécies ameaçadas de extinção

Em meados de 1998, o Rio de Janeiro, através do trabalho de pesquisa realizado pelo Setor de Ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), ganhou uma lista completa e atualizada das espécies ameaçadas de extinção no Estado. Ao todo, são 257 animais, entre aves, mamíferos, répteis, anfíbios, peixes e invertebrados aquáticos e terrestres.
Infelizmente, aparecem na lista os vários animais já consagrados em quase todas as listas dos outros estados, como a onça-pintada, o mono-carvoeiro e a preguiça-de-coleira. E mais uma vez, a principal causa da ameaça de extinção dessas espécies é a destruição de seus habitats naturais, compreendidos, em grande parte, pela também ameaçada Mata Atlântica.
O estudo para atualizar a lista, realizado com o apoio de 120 pesquisadores de todo o Brasil, foi encomendado pelo Ibama. Apesar de dispor de uma lista nacional de animais ameaçados, o principal órgão ambientalista brasileiro encontrava grandes dificuldades para mapear todas as regiões do país e necessitava de um trabalho mais preciso e detalhado.
Cada pesquisador contribuiu com estudos e dados sobre a distribuição das espécies apresentadas previamente pela UERJ. .

Após um workshop com todos os participantes foi elaborada a lista da fauna ameaçada, que só passou a valer oficialmente depois que foi publicada no Diário Oficial.
Segundo a bióloga Helena Bergallo, uma das coordenadoras do trabalho, a lista servirá de base para os órgãos ligados ao meio ambiente traçarem suas metas e programas de conservação da fauna ameaçada e regras de controle sobre a caça e apreensão ilegal de animais e desmatamento florestal.
Em 2004, os pesquisadores da UERJ pretendem repetir o estudo com o objetivo de saber o que mudou nesse período. Dentre as espécies classificadas como “provavelmente extintas” estão a jararaca-verde, o rato-do-mato, a gaivota-maria-velha e algumas espécies de borboleta e de libélula.

Uma boa notícia do estudo é que o mico-leão-dourado passou da categoria “criticamente em perigo” para “em perigo”, graças aos programas de reintrodução da espécie na Mata Atlântica, que diminuiram o risco de sua extinção. O que prova que quando o homem quer, as soluções existem.
Há aquelas espécies que estão ameaçadas de extinção no Rio, mas que ainda ocorrem em outras regiões do Brasil. No entanto, isto não significa que não devemos nos preocupar, pois normalmente a ameaça em um estado costuma ser o indício de que a situação pode piorar em nível nacional.

Os casos mais sérios, comprovando o que foi dito acima, são daquelas espécies que estão ameaçadas em todo o País, como a onça-pintada, a jaguatirica, o mono carvoeiro, a preguiça-de-coleira, o pavão-do-mato, o tatu-canastra e a anta. Ainda assim, os pesquisadores acreditam que mesmo nas situações mais graves pode-se fazer alguma coisa para revertê-las. Não são espécies perdidas, bastando vontade política para elaborar projetos de proteção e conservação. Entretanto, até mesmo para que isso ocorra existem pontos muito importantes a serem abordados pelos pesquisadores, como os locais onde as espécies ocorrem, pois ainda existem muitas dificuldades para se conhecer a distribuição dos animais por região.
Nesse sentido, somente os incentivos à pesquisa poderão tornar estes dados bem conhecidos para que os órgãos ambientalistas possam fazer projetos de reintrodução das espécies em seus habitats naturais com grandes chances de êxito na preservação.

MINAS GERAIS - Atlas da biodiversidade

“Biodiversidade em Minas Gerais: um atlas para sua conservação” é a publicação que resultou do estudo de 121 especialistas de 11 áreas temáticas diferentes, em um ano e meio de trabalho.
Encomendado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentado (Semad) à Fundação Biodiversitas, o trabalho, estampado em um grande mapa e em um atlas com 94 páginas, consumiu cerca de R$ 350 mil.
A inexistência de uma política específica de ocupação e uso do solo resultou na quase completa destruição dos biomas locais e grande perda da diversidade da fauna e flora de Minas Gerais.

No passado recente, a exploração do carvão vegetal para os pólos siderúrgicos e a expansão da fronteira agropecuária foram os responsáveis pelo desmatamento maciço de 588.384 km2 de Mata Atlântica e Cerrado do território mineiro. Atualmente, existe uma forte pressão sobre o Cerrado, a Caatinga e os Campos Ruprestes e de Altitude, provocando um grande número de espécies em extinção __ 178 espécies animais e 538 vegetais.
O Atlas apresenta informações específicas sobre as regiões mais ricas em espécies distintas e define 86 áreas classificadas como de importância extrema, muito alta ou alta ou de importância biológica especial. A grande variedade de ambientes no estado possibilita a ocorrência de 200 espécies de anfíbios e 180 de répteis, com grande número de espécies endêmicas (que só ocorrem em um determinado local). Para preservar estas espécies foram delimitadas 23 áreas, como as serras do Cipó e da Canastra.
Nas seis maiores bacias que drenam 96% do Estado foram registradas 380 espécies de peixes de água doce, em 29 áreas como as bacias dos rios Jequitinhonha e São Francisco.
Minas Gerais possui 780 espécies de aves registradas, sendo que 748 delas estão representadas nas 29 áreas prioritárias. Desse total de espécies, 64 estão ameaçadas nos limites do estudo e 83 aparecem na lista de risco de todo o Estado.
Minas possui ainda 190 espécies de mamíferos, o que corresponde a cerca de 36% dos mamíferos brasileiros. Desse total, quarenta estão sob ameaça de extinção, principalmente pela destruição de seus habitats. O estudo indicou 33 áreas para a preservação destas espécies.
Os invertebrados foram definidos em 46 áreas, das quais doze grutas ou regiões de grutas, como as matas secas do Jaíba e as serras do Cipó e da Mantiqueira.


EXTINÇÃO - O que é e como se determina

Estamos cada vez mais nos acostumando a ver e ouvir falar das várias listas de espécies ameaçadas de extinção divulgadas com freqüência por diversos órgãos e entidades nacionais, como o IBAMA, e internacionais, como a CITES. Mas será que todos nós temos uma boa noção do que significa o processo de extinção e como se determina em que etapa deste processo uma espécie pode estar? Acredito que não. É com este intuito então que o tema é abordado a seguir.

Quando se fala em extinção costuma-se ter em mente a grande interferência do homem na natureza provocando a extinção das outras espécies. Ainda que seja a mais pura e infeliz verdade, nem sempre foi assim. A extinção das espécie sempre foi um processo natural dentro da cadeia evolutiva dos seres vivos em nosso planeta. Teoricamente, todas as espécies têm um “tempo de vida útil”. Surgem, atingem seu ápice e depois começam a desaparecer. Esse tempo pode variar entre centenas e milhões de anos. Exemplos não faltam. Os tubarões já estão em nosso planeta há cerca de 400 milhões de anos, tão bem adaptados que pouco evoluiram nesse período.
Na verdade, se imaginarmos analogicamente que a vida na Terra só teve início uma hora atrás, a espécie humana (Homo sapiens moderno) só passou a existir nos últimos três décimos de segundo (há cerca de 100 mil anos). Mais ainda. Se considerarmos que o homem moderno apenas passou a interferir no meio ambiente, com mudanças gradativas e drásticas, nos últimos 5 mil anos (correspondente ao último centéssimo de segundo), veremos que na quase totalidade do tempo em há vida no planeta as milhares ou talvez milhões de extinções de espécies ocorreram sem a nossa interferência.
Se voltarmos no tempo, imaginando os milhões de anos que se passaram, podemos ter uma noção mais clara do processo de extinção, dito natural. Bastará, para isso, lembrar-se da notória extinção dos dinossauros. Assim como eles, centenas de espécies foram surgindo e se extinguindo naturalmente por força dos efeitos seletivos do ambiente __ o processo evolutivo onde impera a sobrevivência dos mais fortes e mais bem adaptados.
Vários fatores naturais podem levar uma espécie à extinção, como as alterações geológicas, as flutuações e mudanças climáticas de curta ou longa duração e a competição por espaço e alimento entre espécies de um mesmo nicho na cadeia alimentar. Este último fator, pode também ser visto como a interferência de uma espécie sobre a outra. Ou seja, a extinção de uma espécie pode estar diretamente relacionada com o surgimento e expansão de uma outra que disputa os mesmos recursos em um mesmo espaço. É um processo contínuo que permanece até hoje.
Nós, humanos, também já passamos. Dos primeiros hominídeos (antepassados do homem), do gênero Ardipithecus, que viveram há 4 milhões de anos, passando pelos Australopithecus, que viveram até 1,8 milhões de anos atrás, quando surgiu o gênero Homo, várias espécies foram surgindo, se expandindo e forçando a extinção das anteriores.
Há vários exemplos na natureza, nos dias atuais inclusive, da interferência de espécies animais na sobrevivência e extinção de outras, em suas disputas por espaço e alimento. É comum, por exemplo, os leões matarem os guepardos e seus filhotes apenas para eliminar a competição. Assim, se lhes fosse possível, os leões exterminariam as populações de guepardos na África.
Ao mesmo tempo em que o homem interferiu, e ainda interfere, acelerando a extinção de várias espécies, que de outro modo levariam ainda centenas ou milhares de anos para desaparecer, ele hoje também interfere no sentido oposto, não deixando que se extinguam espécies que já entraram no processo natural de extinção.
Quais são, então, os critérios utilizados para se determinar se uma espécie está ou não em processo de extinção e em que grau de risco ela se encontra? Usualmente, são utilizadas cinco categorias para classificar as espécies. São elas: vulnerável, em perigo, criticamente em perigo, provavelmente extinta e extinta. Quando um animal ou vegetal é declarado extinto, significa que desapareceram todas as características externas e internas daquela espécie.
Os critérios utilizados para determinar sua classificação são: distribuição e freqüência da espécie em uma determinada área ou região, capacidade de adaptação a ambientes que não fazem parte de seu habitat natural, seqüelas sofridas pelas mudanças ambientais e variação populacional nos últimos anos. As espécies classificadas entre as provavelmente extintas são aquelas das quais não se fez registro nos últimos 30 anos.
As listas, e as leis que protegem as espécies incluídas nas mesmas, devem sempre ser dinâmicas, possibilitando as inclusões e exclusões das espécies. O tempo ideal para as revisões destas listas situa-se entre 5 e 10 anos, prazo em que os ambientes podem ser alterados pelo homem e as populações animais podem retrair-se ou se expandir. Antes disso, as modificações costumam ser tão pequenas que não surtem o efeito desejado.
Muitas vezes, o reencontro de algumas espécies consideradas provavelmente extintas não significa que esteja havendo uma regeneração dos habitats correspondentes, e sim um maior avanço e esforço nas pesquisas e estudos dos especialistas. Outras vezes, em função até mesmo desse esforço, descobre-se uma nova espécie e tem-se a reboque uma notícia boa e ruim ao mesmo tempo. Embora signifique uma importante notícia e novidade científica, descobre-se que a espécie em questão já tem uma distribuição extremamente restrita, o que pode significar extinção iminente.

SUPERLOTAÇÃO NO ZOOLÓGICO DO RIO
ou O EFEITO COLATERAL DO COMBATE AO COMÉRCIO ILEGAL DE ANIMAIS

Excesso de hóspedes. Esse é o atual e grande problema que o Zoológico do Rio de Janeiro está enfrentando. Desde o início deste ano, o Zôo vem recebendo uma média de 100 animais por mês apreendidos no comércio ilegal __ corresponde a um volume 50% maior do que no ano passado.
A princípio, poderíamos pensar se o que está ocorrendo é devido a um aumento no tráfico e no comércio ilegal de animais ou se é devido ao aumento do policiamento e das ações de combate a esse mesmo tráfico e comércio.

Pelas notícias que temos conhecimento (veja matéria “As Ações da RENCTAS”, ao final) as ações de combate e apreensão realizadas pelas instituições responsáveis vem aumentando gradativamente. Isso faz com que os contrabandistas e comerciantes ilegais, que não querem deixar seus “negócios”, empreendam um esforço cada vez maior para, não só driblar as autoridades, como também recuperar seus prejuízos advindos das apreensões.
Cria-se aí um ciclo vicioso onde o aumento das apreensões deve-se ao crescimento de ambos. No entanto, a força motriz, de partida e manutenção desse ciclo, é, sem dúvida, as efetivas ações de combate. Quebrar esse ciclo é difícil, mas não impossível. Somente um contra-esforço ainda maior por parte das autoridades, e aí esta-se falando de vontade política, aporte de recursos e investimentos em pessoal qualificado e material apropriado, será capaz de inverter o processo e diminuir paulatinamente o comércio ilegal e o correspondente volume de apreensões.
A superlotação do Zôo __ o efeito colateral __ não representa apenas limitação de espaço, mas, principalmente, falta de dinheiro para sustentar tantas bocas e bicos que não estavam previstos em seu orçamento.
Na lista dos bichos mais apreendidos estão as pequenas aves, que se amontoam nos viveiros. Nos últimos meses, o Zôo tem recebido mensalmente cerca de 350 pequenos pássaros. “Eles chegam feridos e fracos. Tem passarinho que se afoga no bebedouro de tanta sede. A cada 100 pássaros recebidos, 80 morrem”, diz a tratadora de aves Lizabeth Ribeiro Soares.
Por mês, o Zôo acolhe em média dois micos ou sagüis, quatro papagaios, duas araras e vinte tartarugas. Fora a nossa fauna silvestre, ainda existem os animais exóticos (de outros países) apreendidos ou levados por donos que não os querem mais, como os leões. Nesse caso, o Zôo, que já tem cinco (contando com um filhote que nasceu no final de agosto deste ano), não pode mais recebê-los por total falta de condições para sustentá-los __ cada leão consome em sua dieta diária cerca de seis quilos de carne.
Atualmente, 80% dos serviços do setor veterinário do Zôo são voltados para os animais recolhidos nas feiras clandestinas e criadouros irregulares ou apreendidos com contrabandistas.
Existe ainda um outro problema enfrentado pelo Zôo ao receber esses animais. Falta-lhe, como falta à comunidade científica, os conhecimentos básicos indispensáveis aos procedimentos de manejo e conservação de muitas espécies de animais silvestres ou mesmo exóticos.
Além do Ibama, que conta com a importante participação da RENCTAS, os animais são enviados também pela Polícia Federal, pelo Batalhão Florestal, pelo Ministério Público e pela Delegacia Móvel do Meio Ambiente.
Márcio Martins, presidente da Fundação RioZoo, explica que um convênio assinado entre a fundação e o Ibama, em 1997, estabelece que o Zôo deve receber os animais provenientes das apreensões. “Nós somos o centro de triagem de animais de todo o Estado. Só que, a cada ano, esse número vem aumentando”, conta Márcio, que já contabiliza a chegada de 800 animais desde o início do ano. Somente com a alimentação desses “hóspedes temporários” o Zôo gasta mensalmente cerca de R$ 3 mil. Preocupado com esta superlotação, Márcio Martins, após uma reunião com os representantes das instutuições responsáveis pela apreensão de animais, no final de agosto, decidiu pedir à Secretaria Municipal de Meio Ambiente que leve a questão aos governos estadual e federal.
Nessa reunião foi discutido também o que poderia ser feito para amenizar o problema. Decidiu-se que o Ibama deveria intervir para agilizar a transferência dos animais apreendidos e já triados. Márcio Martins ressaltou que a prefeitura já tomou mais uma iniciativa para ajudar a resolver a questão. “Em setembro será construída uma central de triagem com verba do Fundo de Conservação Ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente”, conta ele. Com capacidade para mil animais, o centro custará R$ 41 mil.

* Marcelo Szpilman é Biólogo Marinho, Diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor do Informativo do Instituto e autor dos livros Guia Aqualung de Peixes e Seres Marinhos Perigosos.