Ecoturismo:
viagem sustentável
“Tire
apenas fotografias,
deixe apenas leves pegadas e
leve para casa apenas suas memórias”.
Este é o
princípio básico do ecoturismo, versão
ecológica e ambientalmente correta da (potencialmente)
impactante atividade de turismo. Apesar de ser
um conceito relativamente novo __ o primeiro documento
sobre turismo ecológico oficializado pelo
Programa de Meio Ambiente da ONU, a Carta de Quebec,
foi editado em 2002 __, o ecoturismo vem sendo
progressivamente difundido e ganhando adeptos em
vários países. Entre eles o Brasil.
Mesmo tendo uma história caracterizada por exploração predatória,
o Brasil ainda é detentor de riquezas naturais que representam um grande
potencial do ponto de vista do ecoturismo. Da densa e úmida floresta tropical
aos grandes campos secos da caatinga, os ecossistemas |
 |
brasileiros
guardam encantos e particularidades capazes de se reverterem
em sua própria proteção
e conservação, geração sustentável de emprego
e renda e resgate sócio - ambiental.
“Não temos os apelos dos grandes animais africanos ou de paisagens
exóticas como a terra do fogo, mas nosso potencial é enorme em
termos de biodiversidade, cultura, aventura e paisagens naturais. Os maiores
pólos ou regiões para o ecoturismo são Fernando de Noronha,
as três Chapadas - Veadeiros, Diamantina e Guimarães -, Bonito e
muitos dos mais de 50 parques nacionais. Para aventura temos Brotas e Jalapão.
E além disso temos duas marcas fortes, Pantanal e Amazônia, que
podem ser divididas em vários pólos”, ressalta Sérgio
Salazar Salvati, diretor do programa de turismo e meio ambiente da ONG WWF
(World Wide Foundation) Brasil.
| Dicas
imperdíveis de destinos de ecoturismo No Brasil
Ilha de Marajó - PA
Chapada Diamantina - BA
Chapada dos Veadeiros - GO
Bonito - MS
Itacaré - BA
Itatiaia - RJ
Jalapão - TO
Lençóis Maranhenses - MA
Fernando de Noronha - PE
Pantanal - MS/MT
Petar - SP
|
Na
América do Sul
Patagônia Argentina
Patagônia Chilena
Peru |
Turismo de natureza e ecoturismo
A definição oficial de ecoturismo, segundo
a Sociedade Internacional de Ecoturismo (TIES - The International
Ecotourism Society), é: “viagens
responsáveis para áreas naturais que conservam o meio ambiente
e sustentam o bem estar das comunidades locais.” Em outras palavras,
pode-se dizer que ecoturismo é o turismo de natureza (praticado em áreas
não urbanas) onde são adotadas práticas sustentáveis
de mínimo impacto ambiental e de valorização das culturas
locais com o objetivo de ajudar diretamente na conservação
ambiental, na educação das pessoas e no envolvimento e benefício
comunitário.
A diferença crucial entre o turismo convencional (ou de massa) e o ecoturismo
está na maneira de condução e nos objetivos dos visitantes.
Enquanto oprimeiro lota aviões, o segundo privilegia grupos pequenos,
atendimento especializado e individualizado e a interpretação ambiental,
social e cultural como fator importante durante a experiência turística.
Proporcionalmente pode-se até afirmar que o ecoturista paga mais caro,
pois procura uma qualidade superior em viagem calcada em valores intangíveis
e monetariamente imensuráveis. “O verdadeiro ecoturismo contribui
para sensibilizar o viajante em relação à conservação
da natureza e para isso existem técnicas. Não basta dizer que tal
espécie está em extinção. O empreendedor de ecoturismo
deve adotar técnicas de comunicação, como guias, folders
e placas, de forma a provocar respostas no visitante”, explica Salvati.
 |
Os
princípios do ecoturismo, definidos pelo
TIES, são os seguintes:
* Minimizar
impactos;
* Construir consciência ambiental e cultural e respeito;
* Proporcionar experiências positivas tanto para visitantes como anfitriões;
* Proporcionar benefícios financeiros diretos para a conservação
da natureza;
* Proporcionar benefícios financeiros e novas oportunidades para as
populações locais;
* Contribuir para o desenvolvimento da consciência política, ambiental
e social nos países anfitriões;
* Apoiar acordos e direitos humanos internacionais. |
Pólos
e certificação
No
Brasil, as primeiras atividades de ecoturismo se iniciaram
no final dos anos 80, seguindo a tendência mundial
de desenvolvimento do setor. Com a Rio 92 o conceito
ganhou mais visibilidade e passou a impulsionar um
mercado nacional promissor, que desde então
não pára de crescer.
Mas comparado ao patrimônio, riqueza e potencialidade de nossos ecossistemas
naturais, o ecoturismo no Brasil atualmente ainda é pequeno, apesar de
emergente. Organizações ambientais e especialistas da área
indicam a necessidade de implantação de uma política nacional
clara e integradora para o setor, bem como programas públicos
e privados desenvolvidos com planejamento |
 |
ambiental
e turisticamente adequados, de forma
a se evitar a prática de atividades que só tem o rótulo
de ecoturismo (e, que na verdade, são degradantes).
De acordo com o diretor do programa de turismo e meio
ambiente do WWF Brasil, nem a atividade de turismo
no país possui um marco regulatório
e de incentivo claro, o que acaba por dificultar o desenvolvimento do ecoturismo. “Enquanto
o Governo, por exemplo, tenta implementar pólos de ecoturismo na Amazônia,
o mesmo estimula obras de barragens, plantação de soja e outros
tipos de desmatamentos. Falta ainda um regulamento claro para o setor e facilidades
para financiamentos de tecnologias ambientais corretas e a auto organização
do mercado”.
Em 2001 o setor ganhou um grande impulsionador com o projeto Pólos de
Desenvolvimento de Ecoturismo no Brasil, um mapeamento feito pela Embratur em
conjunto com o IEB - Instituto de Ecoturismo do Brasil. Os pólos de ecoturismo
são zonas geográficas localizadas em cada estado que apresentam
atrativos naturais e culturais de interesse ecoturístico. Eles têm
prioridade para investimentos do setor público e privado para o desenvolvimento
da atividade turística. A implantação de pólos depende
de planejamento, envolvimento das comunidades locais, conservação
dos atrativos naturais e investimentos em infra-estrutura, equipamentos e serviços
turísticos.
O projeto identificou 96 pólos nas cinco regiões brasileiras e
fez um inventário das características, potencialidades e infra-estruturas
de apoio disponíveis. Outra iniciativa importante foi a criação,
pelo WWF, do Programa Brasileiro de Certificação em Turismo Sustentável,
cujo objetivo é criar um selo de certificação independente
que estimule maior responsabilidade e competitividade no mercado e estabeleça
padrões de sustentabilidade para a atividade turística no Brasil. “Todo
o trabalho está calcado no conceito de turismo sustentável no contexto
de uma estratégia de sustentabilidade ampla (social, econômica e
ambiental), o que envolve o ecoturismo”, conclui Salati. Como
ser um ecoturista consciente durante a viagem
*
Enquanto você estiver viajando, minimize os impactos
ambientais, sociais e econômicos da sua visita;
* Lembre-se: você é o convidado;
* Seja culturalmente sensível e respeite os costumes
locais;
* Fique o tempo suficiente em cada lugar para poder apreciá-lo;
* Viaje por meio de seus próprios músculos;
* Seja cuidadoso em não introduzir plantas e animais
exóticos;
* Deixe o lugar mais limpo do que você encontrou;
* Familiarize-se com as regulamentações locais;
* Não utilize sabão ou detergente em áreas
naturais;
* Quando viajando, gaste o dinheiro nos comércios
locais;
* Considere as implicações da compra
de produtos animais e vegetais. Não os consuma se
a espécie estiver ameaçada de extinção,
for rara ou se a atividade não é legalmente
reconhecida;
* Não encoraje o comércio ilegal comprando
produtos feitos com espécies ameaçadas.
 |
Quando você retornar
* Fomente e gere um conhecimento natural e cultural dos
lugares que você visitou;
* Considere os efeitos ambientais e culturais da sua visita.
Forneça um retorno à sua operadora, sua agencia
e às agências de governo (quem maneja a área)
| Os
números do ecoturismo * O ecoturismo hoje representa 5% do turismo
mundial e a estimativa é que se alcance 10%
nesta década que se inicia.
* Segundo a Organização Mundial do Turismo,
enquanto o turismo convencional registra um crescimento
de 7,5% ao ano, o ecoturismo ultrapassa 20%.
* Atualmente o Brasil tem
cerca de meio milhão
de ecoturistas, que são atendidos por 250 operadores
e agências especializadas.
* O mercado brasileiro de
ecoturismo movimenta 500 milhões
de reais por ano e gera 30 mil empregos diretos
|
Por
Marcelo Szpilman
Todo
o poder à mãe natureza
Quando
o tema em questão aborda a relação
entre a natureza (e sua conservação) e o
homem (e sua utilização), não há mais
espaço para o romantismo __ o ultrapassado conceito
de preservação ambiental sem a presença
humana há muito foi descartado. A noção
contemporânea de preservação pode ser
melhor compreendida quando abordarmos duas principais idéias.
O turismo ecológico nos parques, reservas e demais áreas de preservação,
representado pela presença constante de visitantes, é hoje uma
das mais efetivas formas de inibição, fiscalização
e controle de atividades predatórias clandestinas, como a caça,
pesca ou desmatamento ilegais. Qualquer “refúgio da vida silvestre” que
dependa exclusivamente da fiscalização oficial corre um risco muito
maior de violação de seus recursos naturais.
 |
O
desenvolvimento sustentável tem seu foco na
disponibilidade dos recursos
e na sua renovação permanente. Nele, a economia, em função
das necessidades de consumo e lazer, está preocupada com o ambiente para
que os recursos naturais não sejam esgotados, buscando soluções
para lucrar com a preservação e a sustentabilidade.
Na verdade, qualquer atividade econômica atual baseada fundamentalmente
na natureza e em seus recursos só irá sobreviver ao criar um elo
ou círculo preservacionista positivo. Em outras palavras, significa dizer
que se é importante para o negócio ter um ecossistema bem conservado,
as pessoas e empresas que operam essa atividade e seus clientes serão
os melhores fiscais da natureza. Todos os envolvidos tenderão a valorizar
a conscientização ecológica e passarão a ter e a
exigir consciência sobre a importância da preservação
da natureza, agora e para as gerações futuras. |
Nos
EUA, a pesca, caça e outras atividades recreacionais
relacionadas à vida
selvagem movimentam mais de US$ 100 bilhões por ano, garantindo milhares
de empregos e (re)investimentos maciços na preservação
do meio ambiente. No Brasil, guardadas as devidas proporções,
o turismo de pesca esportiva, seja ela litorânea ou de interior, incluindo
aí os
famosos “pesque e pague”, já representa um importante setor
da economia produtiva, fonte de geração de empregos, renda, impostos
e benefícios sociais para diversas regiões.
Ainda assim, alguém sempre poderá perguntar, pescar não é anti-ecológico?
Eu discordo totalmente, pois não há nada mais natural do que pescar
um peixe para seu próprio consumo, de forma consciente, é claro.
Ironicamente, aqueles que acham que pescar é anti-ecológico não
deixam de comprar o peixe na peixaria ou de comê-lo no restaurante, sem
se dar conta de que esses peixes são usualmente capturados pela pesca
comercial nas reais condições em que podemos denominar “pesca
predatória”.
O turismo de pesca tem todas as condições de crescer e de se fortalecer
como atividade econômica sustentável. No entanto, para que isso
ocorra de forma plena não podemos nos esquecer de duas importantes condições.
Primeiro, as áreas e reservas protegidas devem existir e devem ser respeitadas.
Segundo, o manejo e o controle das áreas permitidas para a pesca têm
que ser rigorosamente implementados. É muito importante ter regras claras
e limitações rígidas quanto ao número máximo
e peso mínimo para a captura dos peixes.
É perfeitamente possível restabelecer uma relação
harmoniosa entre o homem e a natureza. Todos nós sentimos enorme prazer
ao visitarmos uma área preservada e cheia de vida. Mantê-la nessas
condições passa a ser uma simples questão de comportamento ético
e moral.
Entrevista
Marcelo
Maestrelli e Maria Claudia B. Silveira
Editores do Portal Ecoviagem (www.ecoviagem.com.br)
|
EA:
Como e por que surgiu a idéia de montar o portal
Ecoviagem? Qual é o objetivo principal do portal?
Ecoviagem:
Quem teve a idéia foi o Marcelo: ele era
guia de ecoturismo há dez anos e trabalhava com várias
operadoras de São Paulo levando pessoas para a natureza.
Em suas viagens, ele percebia a extrema importância
da boa orientação ao turista desde seu primeiro
contato com a natureza, e o quanto isso pode influir na conscientização
do turista em suas próximas viagens - mesmo que sem
guia.
Em 1998 Marcelo sofreu um acidente que o deixou em repouso
por alguns meses e, diante da impossibilidade de passar essas
orientações trabalhando
como guia, montar um portal na internet seria a alternativa para a continuidade
deste trabalho de conscientização. Em 1999 então nasceu
o Portal EcoViagem, que tem o objetivo de mostrar as belezas naturais e incentivar
a visitação de forma responsável, divulgando os melhores
destinos para a prática do ecoturismo e, paralelamente, envolvendo o
turista com princípios corretos e responsáveis que devem ser
tomados durante a visitação.
IEA:
Na opinião de vocês, o que é exatamente
o ecoturismo?
Ecoviagem:
Ecoturismo é o turismo que visa proteger
os recursos naturais e culturais de uma localidade; é o
turismo praticado de forma sustentável, valorizando
a comunidade local, preservando o meio ambiente e a cultura
de um povo. É uma potente ferramenta para o crescimento
econômico bem distribuído, pois uma cidadela
esquecida no mapa, com pessoas carentes, sem qualquer conscientização
ambiental, mas cheia de culturas tradicionais e com a natureza
preservada, se bem trabalhada e orientada, tem a oportunidade
de obter renda através do ecoturismo. Mas desde que
este seja praticado de forma responsável.
IEA:
Qual é o potencial do Brasil para o ecoturismo?
Nosso país ainda está muito atrasado em relação
a outros? O que estaria faltando para desenvolver a atividade
de ecoturismo no Brasil (mais políticas públicas
específicas, investimentos, conscientização
etc)?
Ecoviagem:
O Brasil tem é um dos maiores potenciais
para o ecoturismo no mundo. Está apenas começando
por já ter grande procura, e destinos com visitação
razoável. Mas a estrutura para receber os turistas
ainda é precária na grande maioria dos destinos.
Na nossa opinião, o que está faltando em primeiro
lugar é capacitação e planejamento para
os destinos. É muito comum visitarmos destinos em
que percebemos quão carente é o trade local,
principalmente se tratando de relação a “know-how”,
planejamento, estratégias, parcerias, conscientização
etc.
O ecoturismo ainda é uma indústria familiar, como exemplo a maioria
das pousadas, restaurantes e agências locais, que surgem em função
de uma demanda existente. Mas geralmente tudo é feito na “cara
e na coragem” - sem planejamento prévio e regulamento para visitação
visando a boa utilização e preservação dos recursos
naturais e culturais.
IEA: É possível
popularizar o ecoturismo a ponto de ele ganhar tantos adeptos
como os de turismo convencional?
Ecoviagem:
Não. Acreditamos que é possível
popularizar a ponto de adquirir muito mais adeptos, e esta é a
tendência, pois qualquer um pode praticar ecoturismo.
Mas o fato é que muitas pessoas não gostam
de caminhar, roçar a perna no mato, sujar o tênis,
suar a camisa, ver bichos etc. O ecoturismo tende a crescer,
mas será sempre um segmento do turismo.
IEA:
Quais são as principais idéias que todo
o ecoturista deve ter em mente? Quais são os princípios
básicos sobre o que se pode e o que não se
pode fazer em áreas naturais?
Ecoviagem:
Ele deve ter em mente a necessidade de preservar aquele
ambiente. Priorizando a educação ambiental
(não jogar lixo nas trilhas, não levar nada
como flores, pedras, plantas, animais) e ainda estar aberto
para aprender mais sobre a história natural e cultural
dos lugares visitados. É função do ecoturista
oferecer benefícios diretos à economia e aos
habitantes locais. Ppor isso deve buscar sempre os serviços
oferecidos por empresas locais com profissionais locais,
tendo a certeza que esta verba voltará para o desenvolvimento
da cidade.
IEA:
Criança pode ser ecoturista?
Ecoviagem:
Sim, há muitas crianças fazendo
trilhas e turismo de aventura com suas famílias, mesmo
em acampamentos e excursões de escolas. Mas lógico
que há restrições de acordo com a atividade
praticada.
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