Informativo do Instituto

Informativo 55 - maio / junho de 2004

Ecoturismo: viagem sustentável



 

 

 




Texto: Jaqueline B. Ramos (jornalista ambiental - jaquelinebramos@globo.com)
Fontes: Ministério do Meio Ambiente, WWF,
TIES - The International
Ecotourism Society e Portal Ecovioagem

Ecoturismo: viagem sustentável

“Tire apenas fotografias, deixe apenas leves pegadas e leve para casa apenas suas memórias”.

Este é o princípio básico do ecoturismo, versão ecológica e ambientalmente correta da (potencialmente) impactante atividade de turismo. Apesar de ser um conceito relativamente novo __ o primeiro documento sobre turismo ecológico oficializado pelo Programa de Meio Ambiente da ONU, a Carta de Quebec, foi editado em 2002 __, o ecoturismo vem sendo progressivamente difundido e ganhando adeptos em vários países. Entre eles o Brasil.
Mesmo tendo uma história caracterizada por exploração predatória, o Brasil ainda é detentor de riquezas naturais que representam um grande potencial do ponto de vista do ecoturismo. Da densa e úmida floresta tropical aos grandes campos secos da caatinga, os ecossistemas
brasileiros guardam encantos e particularidades capazes de se reverterem em sua própria proteção e conservação, geração sustentável de emprego e renda e resgate sócio - ambiental.
“Não temos os apelos dos grandes animais africanos ou de paisagens exóticas como a terra do fogo, mas nosso potencial é enorme em termos de biodiversidade, cultura, aventura e paisagens naturais. Os maiores pólos ou regiões para o ecoturismo são Fernando de Noronha, as três Chapadas - Veadeiros, Diamantina e Guimarães -, Bonito e muitos dos mais de 50 parques nacionais. Para aventura temos Brotas e Jalapão. E além disso temos duas marcas fortes, Pantanal e Amazônia, que podem ser divididas em vários pólos”, ressalta Sérgio Salazar Salvati, diretor do programa de turismo e meio ambiente da ONG WWF (World Wide Foundation) Brasil.


Dicas imperdíveis de destinos de ecoturismo

No Brasil

Ilha de Marajó - PA
Chapada Diamantina - BA
Chapada dos Veadeiros - GO
Bonito - MS
Itacaré - BA
Itatiaia - RJ
Jalapão - TO
Lençóis Maranhenses - MA
Fernando de Noronha - PE
Pantanal - MS/MT
Petar - SP




Na América do Sul


Patagônia Argentina
Patagônia Chilena
Peru

Turismo de natureza e ecoturismo

A definição oficial de ecoturismo, segundo a Sociedade Internacional de Ecoturismo (TIES - The International Ecotourism Society), é: “viagens responsáveis para áreas naturais que conservam o meio ambiente e sustentam o bem estar das comunidades locais.” Em outras palavras, pode-se dizer que ecoturismo é o turismo de natureza (praticado em áreas não urbanas) onde são adotadas práticas sustentáveis de mínimo impacto ambiental e de valorização das culturas locais com o objetivo de ajudar diretamente na conservação ambiental, na educação das pessoas e no envolvimento e benefício comunitário.
A diferença crucial entre o turismo convencional (ou de massa) e o ecoturismo está na maneira de condução e nos objetivos dos visitantes. Enquanto oprimeiro lota aviões, o segundo privilegia grupos pequenos, atendimento especializado e individualizado e a interpretação ambiental, social e cultural como fator importante durante a experiência turística. Proporcionalmente pode-se até afirmar que o ecoturista paga mais caro, pois procura uma qualidade superior em viagem calcada em valores intangíveis e monetariamente imensuráveis. “O verdadeiro ecoturismo contribui para sensibilizar o viajante em relação à conservação da natureza e para isso existem técnicas. Não basta dizer que tal espécie está em extinção. O empreendedor de ecoturismo deve adotar técnicas de comunicação, como guias, folders e placas, de forma a provocar respostas no visitante”, explica Salvati.

Os princípios do ecoturismo, definidos pelo TIES, são os seguintes:

* Minimizar impactos;
* Construir consciência ambiental e cultural e respeito;
* Proporcionar experiências positivas tanto para visitantes como anfitriões;
* Proporcionar benefícios financeiros diretos para a conservação da natureza;
* Proporcionar benefícios financeiros e novas oportunidades para as populações locais;
* Contribuir para o desenvolvimento da consciência política, ambiental e social nos países anfitriões;
* Apoiar acordos e direitos humanos internacionais.

Pólos e certificação

No Brasil, as primeiras atividades de ecoturismo se iniciaram no final dos anos 80, seguindo a tendência mundial de desenvolvimento do setor. Com a Rio 92 o conceito ganhou mais visibilidade e passou a impulsionar um mercado nacional promissor, que desde então não pára de crescer.
Mas comparado ao patrimônio, riqueza e potencialidade de nossos ecossistemas naturais, o ecoturismo no Brasil atualmente ainda é pequeno, apesar de emergente. Organizações ambientais e especialistas da área indicam a necessidade de implantação de uma política nacional clara e integradora para o setor, bem como programas públicos
e privados desenvolvidos com planejamento
ambiental e turisticamente adequados, de forma a se evitar a prática de atividades que só tem o rótulo de ecoturismo (e, que na verdade, são degradantes).
De acordo com o diretor do programa de turismo e meio ambiente do WWF Brasil, nem a atividade de turismo no país possui um marco regulatório e de incentivo claro, o que acaba por dificultar o desenvolvimento do ecoturismo. “Enquanto o Governo, por exemplo, tenta implementar pólos de ecoturismo na Amazônia, o mesmo estimula obras de barragens, plantação de soja e outros tipos de desmatamentos. Falta ainda um regulamento claro para o setor e facilidades para financiamentos de tecnologias ambientais corretas e a auto organização do mercado”.
Em 2001 o setor ganhou um grande impulsionador com o projeto Pólos de Desenvolvimento de Ecoturismo no Brasil, um mapeamento feito pela Embratur em conjunto com o IEB - Instituto de Ecoturismo do Brasil. Os pólos de ecoturismo são zonas geográficas localizadas em cada estado que apresentam atrativos naturais e culturais de interesse ecoturístico. Eles têm prioridade para investimentos do setor público e privado para o desenvolvimento da atividade turística. A implantação de pólos depende de planejamento, envolvimento das comunidades locais, conservação dos atrativos naturais e investimentos em infra-estrutura, equipamentos e serviços
turísticos.
O projeto identificou 96 pólos nas cinco regiões brasileiras e fez um inventário das características, potencialidades e infra-estruturas de apoio disponíveis. Outra iniciativa importante foi a criação, pelo WWF, do Programa Brasileiro de Certificação em Turismo Sustentável, cujo objetivo é criar um selo de certificação independente que estimule maior responsabilidade e competitividade no mercado e estabeleça padrões de sustentabilidade para a atividade turística no Brasil. “Todo o trabalho está calcado no conceito de turismo sustentável no contexto de uma estratégia de sustentabilidade ampla (social, econômica e ambiental), o que envolve o ecoturismo”, conclui Salati.

Como ser um ecoturista consciente durante a viagem

* Enquanto você estiver viajando, minimize os impactos ambientais, sociais e econômicos da sua visita;
* Lembre-se: você é o convidado;
* Seja culturalmente sensível e respeite os costumes locais;
* Fique o tempo suficiente em cada lugar para poder apreciá-lo;
* Viaje por meio de seus próprios músculos;
* Seja cuidadoso em não introduzir plantas e animais exóticos;
* Deixe o lugar mais limpo do que você encontrou;
* Familiarize-se com as regulamentações locais;
* Não utilize sabão ou detergente em áreas naturais;
* Quando viajando, gaste o dinheiro nos comércios locais;
* Considere as implicações da compra de produtos animais e vegetais. Não os consuma se a espécie estiver ameaçada de extinção, for rara ou se a atividade não é legalmente reconhecida;
* Não encoraje o comércio ilegal comprando produtos feitos com espécies ameaçadas.

Quando você retornar
* Fomente e gere um conhecimento natural e cultural dos lugares que você visitou;
* Considere os efeitos ambientais e culturais da sua visita. Forneça um retorno à sua operadora, sua agencia e às agências de governo (quem maneja a área)

Os números do ecoturismo

* O ecoturismo hoje representa 5% do turismo mundial e a estimativa é que se alcance 10% nesta década que se inicia.
* Segundo a Organização Mundial do Turismo, enquanto o turismo convencional registra um crescimento de 7,5% ao ano, o ecoturismo ultrapassa 20%.
* Atualmente o Brasil tem cerca de meio milhão de ecoturistas, que são atendidos por 250 operadores e agências especializadas.
* O mercado brasileiro de ecoturismo movimenta 500 milhões de reais por ano e gera 30 mil empregos diretos

Por Marcelo Szpilman

Todo o poder à mãe natureza

Quando o tema em questão aborda a relação entre a natureza (e sua conservação) e o homem (e sua utilização), não há mais espaço para o romantismo __ o ultrapassado conceito de preservação ambiental sem a presença humana há muito foi descartado. A noção contemporânea de preservação pode ser melhor compreendida quando abordarmos duas principais idéias.
O turismo ecológico nos parques, reservas e demais áreas de preservação, representado pela presença constante de visitantes, é hoje uma das mais efetivas formas de inibição, fiscalização e controle de atividades predatórias clandestinas, como a caça, pesca ou desmatamento ilegais. Qualquer “refúgio da vida silvestre” que dependa exclusivamente da fiscalização oficial corre um risco muito maior de violação de seus recursos naturais.
O desenvolvimento sustentável tem seu foco na disponibilidade dos recursos e na sua renovação permanente. Nele, a economia, em função das necessidades de consumo e lazer, está preocupada com o ambiente para que os recursos naturais não sejam esgotados, buscando soluções para lucrar com a preservação e a sustentabilidade.
Na verdade, qualquer atividade econômica atual baseada fundamentalmente na natureza e em seus recursos só irá sobreviver ao criar um elo ou círculo preservacionista positivo. Em outras palavras, significa dizer que se é importante para o negócio ter um ecossistema bem conservado, as pessoas e empresas que operam essa atividade e seus clientes serão os melhores fiscais da natureza. Todos os envolvidos tenderão a valorizar a conscientização ecológica e passarão a ter e a exigir consciência sobre a importância da preservação da natureza, agora e para as gerações futuras.

Nos EUA, a pesca, caça e outras atividades recreacionais relacionadas à vida selvagem movimentam mais de US$ 100 bilhões por ano, garantindo milhares de empregos e (re)investimentos maciços na preservação do meio ambiente. No Brasil, guardadas as devidas proporções, o turismo de pesca esportiva, seja ela litorânea ou de interior, incluindo aí os famosos “pesque e pague”, já representa um importante setor da economia produtiva, fonte de geração de empregos, renda, impostos e benefícios sociais para diversas regiões.
Ainda assim, alguém sempre poderá perguntar, pescar não é anti-ecológico? Eu discordo totalmente, pois não há nada mais natural do que pescar um peixe para seu próprio consumo, de forma consciente, é claro. Ironicamente, aqueles que acham que pescar é anti-ecológico não deixam de comprar o peixe na peixaria ou de comê-lo no restaurante, sem se dar conta de que esses peixes são usualmente capturados pela pesca comercial nas reais condições em que podemos denominar “pesca predatória”.
O turismo de pesca tem todas as condições de crescer e de se fortalecer como atividade econômica sustentável. No entanto, para que isso ocorra de forma plena não podemos nos esquecer de duas importantes condições. Primeiro, as áreas e reservas protegidas devem existir e devem ser respeitadas. Segundo, o manejo e o controle das áreas permitidas para a pesca têm que ser rigorosamente implementados. É muito importante ter regras claras e limitações rígidas quanto ao número máximo e peso mínimo para a captura dos peixes.
É perfeitamente possível restabelecer uma relação harmoniosa entre o homem e a natureza. Todos nós sentimos enorme prazer ao visitarmos uma área preservada e cheia de vida. Mantê-la nessas condições passa a ser uma simples questão de comportamento ético e moral.

Entrevista

Marcelo Maestrelli e Maria Claudia B. Silveira
Editores do Portal Ecoviagem (www.ecoviagem.com.br)

EA: Como e por que surgiu a idéia de montar o portal Ecoviagem? Qual é o objetivo principal do portal?

Ecoviagem: Quem teve a idéia foi o Marcelo: ele era guia de ecoturismo há dez anos e trabalhava com várias operadoras de São Paulo levando pessoas para a natureza. Em suas viagens, ele percebia a extrema importância da boa orientação ao turista desde seu primeiro contato com a natureza, e o quanto isso pode influir na conscientização do turista em suas próximas viagens - mesmo que sem guia.
Em 1998 Marcelo sofreu um acidente que o deixou em repouso por alguns meses e, diante da impossibilidade de passar essas orientações trabalhando como guia, montar um portal na internet seria a alternativa para a continuidade deste trabalho de conscientização. Em 1999 então nasceu o Portal EcoViagem, que tem o objetivo de mostrar as belezas naturais e incentivar a visitação de forma responsável, divulgando os melhores destinos para a prática do ecoturismo e, paralelamente, envolvendo o turista com princípios corretos e responsáveis que devem ser tomados durante a visitação.

IEA: Na opinião de vocês, o que é exatamente o ecoturismo?

Ecoviagem: Ecoturismo é o turismo que visa proteger os recursos naturais e culturais de uma localidade; é o turismo praticado de forma sustentável, valorizando a comunidade local, preservando o meio ambiente e a cultura de um povo. É uma potente ferramenta para o crescimento econômico bem distribuído, pois uma cidadela esquecida no mapa, com pessoas carentes, sem qualquer conscientização ambiental, mas cheia de culturas tradicionais e com a natureza preservada, se bem trabalhada e orientada, tem a oportunidade de obter renda através do ecoturismo. Mas desde que este seja praticado de forma responsável.

IEA: Qual é o potencial do Brasil para o ecoturismo? Nosso país ainda está muito atrasado em relação a outros? O que estaria faltando para desenvolver a atividade de ecoturismo no Brasil (mais políticas públicas específicas, investimentos, conscientização etc)?

Ecoviagem: O Brasil tem é um dos maiores potenciais para o ecoturismo no mundo. Está apenas começando por já ter grande procura, e destinos com visitação razoável. Mas a estrutura para receber os turistas ainda é precária na grande maioria dos destinos. Na nossa opinião, o que está faltando em primeiro lugar é capacitação e planejamento para os destinos. É muito comum visitarmos destinos em que percebemos quão carente é o trade local, principalmente se tratando de relação a “know-how”, planejamento, estratégias, parcerias, conscientização etc.
O ecoturismo ainda é uma indústria familiar, como exemplo a maioria das pousadas, restaurantes e agências locais, que surgem em função de uma demanda existente. Mas geralmente tudo é feito na “cara e na coragem” - sem planejamento prévio e regulamento para visitação visando a boa utilização e preservação dos recursos naturais e culturais.

IEA: É possível popularizar o ecoturismo a ponto de ele ganhar tantos adeptos como os de turismo convencional?

Ecoviagem: Não. Acreditamos que é possível popularizar a ponto de adquirir muito mais adeptos, e esta é a tendência, pois qualquer um pode praticar ecoturismo. Mas o fato é que muitas pessoas não gostam de caminhar, roçar a perna no mato, sujar o tênis, suar a camisa, ver bichos etc. O ecoturismo tende a crescer, mas será sempre um segmento do turismo.

IEA: Quais são as principais idéias que todo o ecoturista deve ter em mente? Quais são os princípios básicos sobre o que se pode e o que não se pode fazer em áreas naturais?

Ecoviagem: Ele deve ter em mente a necessidade de preservar aquele ambiente. Priorizando a educação ambiental (não jogar lixo nas trilhas, não levar nada como flores, pedras, plantas, animais) e ainda estar aberto para aprender mais sobre a história natural e cultural dos lugares visitados. É função do ecoturista oferecer benefícios diretos à economia e aos habitantes locais. Ppor isso deve buscar sempre os serviços oferecidos por empresas locais com profissionais locais, tendo a certeza que esta verba voltará para o desenvolvimento da cidade.

IEA: Criança pode ser ecoturista?

Ecoviagem: Sim, há muitas crianças fazendo trilhas e turismo de aventura com suas famílias, mesmo em acampamentos e excursões de escolas. Mas lógico que há restrições de acordo com a atividade praticada.