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Por
não apresentar a exuberância da Floresta Amazônica
ou da Mata Atlântica, a qual estamos acostumados a ver e que
"enche os nossos olhos", o Cerrado brasileiro veio sendo
constantemente desprezado até a década de 60 como
se fosse apenas um grande descampado com espargidas árvores
retorcidas, no centro do país. Não despertava, por
isso, a merecida atenção como área potencial
para o desenvolvimento econômico e muito menos como um verdadeiro
ecossistema, digno de preocupações conservacionistas.
Nas últimas três décadas, este cenário
começou a se alterar. Com a mudança da capital do
País para Brasília, na década de 60, e a criação
de técnicas de correção do solo ácido
em conjunto com a introdução de novas espécies
de gramíneas para alimentação do gado, na década
de 70, houve um enorme desenvolvimento da região com a expansão
rodoviária, populacional, imobiliária e agropecuária.
Atualmente, 42% da soja e 32% do milho nacionais são produzidos
no Cerrado, enquanto que 40% do rebanho bovino do país é
criado por lá.
Todo esse desenvolvimento e expansão provocou, como não
poderia deixar de ser __ já que se assemelha muito à
expansão das áreas urbanas, industrias e agropecuárias
européias e norte-americanas nos séculos passados
__, a degradação ambiental e a correspondente, porém
tardia, inquietação dos ambientalistas.
Um recente estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
revelou que, da área original de Cerrado __ correspondente
a 22% do território nacional ou à soma de dez países
da Europa __, apenas um terço permanece intacto. Outra terça
parte foi degradada por pequenos agricultores e estradas e o restante
está irremediavelmente perdido, coberto por cidades ou plantações.
As regiões mais arrasadas estão no Estado de São
Paulo, que já abrigou 10% do Cerrado e hoje conserva apenas
1%.
Além do diagnóstico por satélite, o foco dos
ambientalistas sobre o Cerrado originou estudos inéditos
sobre sua biodiversidade. Por ser uma vegetação aberta,
sempre se acreditou que o ecossistema da região não
apresentasse espécies importantes. O resultado da pesquisa,
no entanto, mostrou que a realidade é completamente diferente.
O Cerrado é rico em diversidade animal e vegetal. O fato
de ainda não conhecermos a totalidade de sua biodiversidade
aumenta muito a importância de evitar a destruição
desta região.
A BIODIVERSIDADE DO CERRADO
ANIMAL
| Das
1.622 espécies de aves brasileiras, mais de 550 vivem
no Cerrado. A região é habitada também
por grande parte dos maiores, mais bonitos e também mais
ameaçados mamíferos de nossa fauna, como a onça-pintada,
a onça parda, o lobo guará, a lontra, a ariranha,
o quati e o cervo pantaneiro. Apenas na região do Distrito
Federal foram cadastradas mais de 1.000 espécies de borboletas,
30 de morcegos e 550 de abelhas. |
VEGETAL
| Além
de flores exuberantes, onde despontam bromélias, orquídeas
e plantas carnívoras, a região apresenta variedades
silvestres de plantas cultivadas, como o caju, a mandioca, o
abacaxi, o caqui, a goiaba, o amendoim e o guaraná. Todas
essas variedades são fundamentais para os trabalhos de
melhoria genética que permitem desenvolver tipos mais
resistentes às pragas. Cerca de 80 plantas nativas, como
o pequi, são usadas na alimentação. Algumas
têm potencial para a produção de adoçantes.
Vinte espécies de árvores produzem cortiça
e alguns arbustos têm quantidade suficiente de tanino
__ usado no curtimento de couro __ para ser comercialmente viáveis.
Mais de 100 espécies possuem propriedades medicinais
conhecidas. |
Hoje,
temos plena consciência e capacidade tecnológica para
saber que sua superfície não precisa ser toda ocupada
para gerar um excedente agrícola. Até porque, se,
hipoteticamente, ocupassemos todas as terras com plantações,
além de extingüir a fauna e a flora, haveria o risco
de degradação do solo com sua conseqüente erosão.
Segundo a Embrapa, usando apenas as técnicas modernas de
manejo do solo, a área de 10 milhões de hectares atualmente
ocupada pela agricultura no Cerrado, poderia, no mínimo,
dobrar a produção e chegar a 60 milhões de
toneladas de grãos por ano.
É fundamental, para a sobrevivência dos animais e plantas,
manter preservadas as áreas representativas da diversidade
animal e vegetal, com a criação de mais Unidades de
Conservação, como parques e reservas. Infelizmente,
apenas 1,5% da área de Cerrado se encontra hoje protegida.
É muito pouco, mesmo quando a comparamos com a média
do território nacional, que é de 2,6% de área
preservada, e, muito menos ainda, em comparação com
a Amazônia, que tem 3,8% de sua área "teoricamente"
preservada.
Novos parques, aliados ao cumprimento do atual código florestal
e à implementação do turismo ecológico
consciente, com certeza ajudariam bastante na preservação
da vida selvagem e do ecossistema do Cerrado. Por lei, os fazendeiros
são obrigados a manter pelo menos 20% das propriedades como
reserva e preservar a vegetação ao longo dos rios
e cursos de água, além das encostas com mais de 45
graus de declividade.
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Marcelo Szpilman é Biólogo Marinho, Diretor do Instituto
Ecológico Aqualung, Editor do Informativo do Instituto e
autor dos livros Guia Aqualung de Peixes e Seres Marinhos
Perigosos.
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