Informativo do Instituto

Consumo excessivo, poluição e crescimento demográfico na Terra ameaçam esgotar as reservas de água doce do planeta.

Informativo n° 50 - julho/agosto de 2003

Texto de Cintia Rygaard *


Fontes: ONU, National Geographic, Veja, Super Interessante e Biologia Hoje.

Entre os fantasmas que rondam a humanidade no século XXI, como a destruição das florestas tropicais, o aquecimento global, a poluição, a pesca descontrolada e o enorme volume de lixo, a falta de água doce está (ou deveria estar) no topo da lista de prioridades, sobretudo nos países em desenvolvimento.
Para ter-se uma dimensão mais próxima da realidade que envolve a questão da água, é preciso que esclarecer alguns pontos. Apesar de, aparentemente, a Terra dispor de uma enorme quantidade de água, quase 97% é constituída por água salgada dos mares e oceanos e cerca de 2% dela está congelada em geleiras e na camada de gelo que recobre as regiões polares. Logo, somente a fração restante, ou 1%, está efetivamente disponível para o consumo humano, a irrigação e o uso industrial. É sobre essa pequena parte que está-se debatendo os problemas oriundos da escassez, da poluição e do mau uso da água. É preciso que se trate melhor esse recurso vital que a natureza nos proporciona. Por isso, estamos convidando-o para virar a página e pensar melhor a respeito de como você e todos nós temos lidado com esse elemento natural do qual desfrutamos a cada instante sem sequer dar conta ou importância. E olha que no futuro breve deve valer mais do que o petróleo. É o que rezam economistas, políticos e empresas que apostam que o líquido, em breve, será fator determinante para a prosperidade desse ou daquele país. Boa leitura!
A Indústria da Água

A água é um recurso renovável pelo ciclo natural de evaporação-chuva e distribuído na superfície terrestre. Mas a intervenção humana tem afetado de forma dramática esse sistema de renovação dos recursos hídricos. Em certos lugares, como no oeste dos Estados Unidos, norte da China e boa parte da Índia, esse líquido fundamental para a existência e manutenção de qualquer tipo de vida já vem sendo consumido em um ritmo mais rápido do que ele se pode renovar. Mais da metade dos rios está poluída com os despejos de esgotos, resíduos industriais e agrotóxicos.
Estima-se que 30% das maiores bacias hidrográficas perderam mais da metade da cobertura vegetal original, o que levou à redução da quantidade de água. Nove de cada dez litrosde água utilizados no Terceiro Mundo são devolvidos à natureza sem nenhum tipo de tratamento. Por conta dessas e outras, o conceito de água tem mudado e muito. Passou de dádiva inesgotável e gratuita para mercadoria, com preço de mercado conforme recomendação do Banco Mundial. Tornar a água mais cara é uma das providências necessárias para garantir o abastecimento no futuro. É consenso internacional e inclusive é um bem que terá seu preço cada vez mais onerado.
Na Europa, em países como a França, a Alemanha e a Holanda, cobra-se em torno de 0,17 centavo de dólar para cada metro cúbico de água (1000 litros), sem contar as tarifas de abastecimento e tratamento de esgoto. Nos países industrializados, a perda a água é causada por sistemas obsoletos de distribuição. Já nos países em desenvolvimento, o problema é a falta de esgotos e de água encanada. A água proveniente dos lençóis freáticos está sendo usada sem que se planeje uma exploração que leve em conta a capacidade de suporte desse tipo de ecossistema. A captação desenfreada dessa fonte está exaurindo sua recuperação.
Há 40 anos, poços de 30 metros eram suficientes para atingir o aqüífero de Ogallala, um enorme depósito de água subterrâneo sob oito estados americanos. Atualmente, é preciso que se fure pelo menos 100 metros. Assim, a indústria encarregada de captar a água das fontes e levá-la às torneiras do consumidor agora se preocupa em tratá-la antes que volte para a natureza. Estima-se que ela movimenta 400 bilhões de dólares, entre empresas públicas e privadas. Isso equivale a 40% do setor petrolífero e é 30% maior que o setor farmacêutico. Como o petróleo hoje em dia, os recursos hídricos estão no cerne de um número cada vez maior de tensões internacionais.
A ONU calcula que 300 rios são objetos de conflitos fronteiriços. No Oriente Médio, região sempre em evidência por causa das guerras, uma séria controvérsia envolve a disputa de três países pelo uso da água do rio Eufrates. A Turquia, onde está a cabeceira do curso de água, ergueu várias represas para projetos de irrigação. O resultado foi a diminuição do volume de água na Síria, que depende do rio Eufrates para suprir metade da sua demanda, e no norte do Iraque. Um dos pontos sem acordo entre Israel e os palestinos é o uso das reservas aqüíferas da Palestina, hoje superexploradas pelos israelenses.


Curiosidades

Por que a chuva depende da poeira?

Parece estranho, mas a poeira é essencial para o ciclo da vida na Terra. As nuvens não se formariam sem ela. É em torno de partículas de pó que a água evaporada condensa para voltar ao solo como chuva. A mesma chuva que, depois, retira até 90% da poeira do ar para que se respire melhor.

O que causa a ressaca no mar?

A chegada de ondas violentas à costa começa quando rajadas de vento geladas e fortes, trazidas por uma frente fria, fazem subir o nível do oceano e aumentam as correntes marítimas. Essa intensa massa de água caminha com velocidade crescente até encontrar o litoral, transportada por ventos de até 50 quilômetros por hora, o que faz o oceano subir 2 metros e cria ondas de até 4 metros, dependendo do local. Ao chegar à praia, o mar agitado inunda a faixa de areia e a orla é alagada pela força das ondas. Construções à beira-mar são danificadas e também há relatos de banhistas tragados pelo mar. Segundo o oceanógrafo Joseph Harari, da Universidade de São Paulo, “no Brasil, as ressacas são quase sempre causadas por frentes frias que atingem o Sul e o Sudeste e podem ocorrer dezenas de vezes por ano, mas, felizmente, é possível prevê-las até cinco dias antes”.


O que é um gêiser?

A palavra, de origem islandesa, significa “fonte jorrante” e foi usada pela primeira vez, com o sentido atual, em 1924 para descrever um estranho buraco que cuspia fortes jatos de água quente e vapor de dentro da terra no oeste da Islândia. Tal fenômeno acontece em regiões de erupções vulcânicas relativamente recentes. “Isso explica porque não há gêiseres no Brasil. Aqui, os últimos vulcões se extinguiram no período mesozóico, entre 245 e 66 milhões de anos atrás”, explica a geóloga Annkarin Aurélia Kimmelmann, da Universidade de São Paulo, USP.
O magma incandescente aquece a água da chuva ou de neve derretida que penetra no subsolo. Reservada em rochas impermeáveis, o líquido atinge temperaturas superiores a 200°C. À medida em que esquenta, ele ganha pressão, aumenta de volume e empurra a coluna d’água para cima, explodindo a água fervente para fora. Existem, em todo o planeta, menos de 1000 gêiseres, a maioria concentrada nos Estados Unidos, Rússia e no Chile. O mais famoso chama-se Old Faithful, situado no Parque Yellowstone, EUA, que lança jatos de até 50 metros a cada 80 minutos, pontualmente.


Como as fases da lua influenciam as marés?


Na verdade, os movimentos de subida e descidas do nível do mar não são causados só pela Lua mas também sofrem influência do Sol que, mesmo estando 390 vezes mais distante da Terra que a Lua, exerce uma atração que corresponde a 46% da lunar. Mas como se dá esse processo? As marés são o efeito do puxão gravitacional da Lua sobre a superfície dos oceanos devido à fluidez e à liberdade de movimento da água. A cada dia, a influência lunar provoca correntes marítimas que geram duas marés altas (quando o oceano está de frente para o satélite e em oposição a ela) e duas baixas (nos intervalos entre as altas). Entretanto, dependendo da posição dos dois astros em relação ao planeta, as marés têm comportamentos diferentes. É aí que entram as fases lunares: quando a Terra, Lua e o Sol estão alinhados, a atração gravitacional dos dois últimos se soma, ampliando seu efeito na massa marítima. Por outro lado, quando as forças de atração dos astros se opõem, quase não há diferença entre maré alta e baixa. Outros fatores que contam nesse jogo de forças são o contorno da costa e as dimensões do fundo do mar, que variam conforme a região.


Lua Nova

Nessa fase, diminui a influência do Sol e da Lua nas marés oceânicas. Na noite em que metade da Lua está visível, a atração atinge o seu menor valor. Em Santos, no litoral paulista, por exemplo, a diferença entre maré baixa e alta não passa de 5 centímetros.
Lua Minguante


Elevação máxima do nível do mar, época de maiores marés altas derivadas da soma da atração exercida pelo Sol e pela Lua sobre a Terra quando alinhados __ o que os astrônomos chamam de oposição ou conjunção. Nesse período, a diferença entre as marés pode chegar a um metro. São as marés “máximas”.
Lua Cheia

Cerca de duas semanas depois da Lua Nova, o satélite natural se alinha novamente com o Sol e a Terra. Essa combinação traz uma nova leva de marés máximas.
Lua Crescente

Finalmente, a Lua e o Sol formam um ângulo reto de 90°. Portanto, nessa situação, a gravitação lunar se opõe à solar __ elas só não se anulam porque a Lua, mais perto da Terra, exerce maior poder de atração. Ainda assim, as diferenças de nível entre as marés alta e baixa são muito menores e recebem o nome de “marés mínimas”.

Fique por Dentro

A Água na Química dos Seres Vivos

A substância encontrada em maior quantidade nos seres vivos é a água. Ela representa cerca de 70% do peso de um homem, o que significa que indivíduo com 70Kg contém quase 50kg de água. Esse volume varia de acordo com a idade e o tipo de tecido. Assim, uma criança tem mais água em seu corpo do que um adulto e este tem mais água do que uma pessoa idosa. Os tecidos de maior atividade metabólica, como o tecido nervoso, também tem mais água do aquele com baixa atividade, como o tecido adiposo A perda de água (desidratação), identificada por febre, diarréia e vômitos, representa uma séria ameaça à vida. Nos mamíferos, uma desidratação que chegue a 10% do conteúdo de água é fatal. A quantidade de água no corpo dos seres vivos varia de um organismo para o outro. Podemos dizer, de um modo geral, que os vegetais são mais “aguados” que os animais.
Outra propriedade da água é sua capacidade de absorver e perder grandes quantidades de calor sem esquentar ou esfriar muito. Como os seres vivos contém muita água, isso lhes permite que sua temperatura corporal não varie muito durante a entrada ou saída de calor.
A intensidade de calor necessária para provocar a evaporação da água também é muito alta. Cada vez que certa quantidade de água evapora, leva consigo muito calor. Quando a temperatura do ambiente ultrapassa determinados valores, ou quando o corpo esquenta devido a um exercício físico, as glândulas sudoríparas eliminam suor. A água contida no suor evapora, levando com ela o calor da pele, o que impede que a temperatura do corpo se eleve muito. Por esse ciclo se completa a capacidade reguladora da temperatura da água no corpo do ser humano.

A Vida (Quase) sem Água

Existem seres vivos que podem viver quase que totalmente sem água, por períodos mais ou menos prolongados. É o caso, por exemplo, dos esporos de bactérias, cistos de protozoários e das sementes de vegetais superiores. Esse fenômeno é chamado de anidrobiose (vida sem água) e corresponde a uma forma de vida latente, na qual as reações do metabolismo estão reduzidas a um mínimo necessário à manutenção da vida, estando suspensas as propriedades de nutrição, crescimento e reprodução.

O Gelo e a vida em regiões geladas

Em geral, a fase sólida de uma substância é mais densa do que na sua fase líquida e assim costuma precipitar. Entretanto, no caso da água, a fase sólida (gelo) é menos densa do que a fase líquida, pois o espaço entre as moléculas da água enquanto gelo é maior do que o espaço entre as moléculas de água líquida. Sendo menos denso, o gelo flutua na água. Nos locais em que o ar é muito frio, esse gelo que se forma na superfície da água atua como isolante, tornando mais difícil que a água abaixo se congele. Isso permite a sobrevivência de organismos aquáticos em regiões frias. Se o gelo fosse mais denso, iria para o fundo na medida em que se formasse e os lagos dessas áreas congelariam totalmente.

Atitudes Simples para Colaborar

- Não demore muito no chuveiro e, ao ensaboar-se, mantenha a torneira fechada. Abra apenas para o enxagüe. Isso vale para escovar os dentes, fazer a barba ou lavar louça.
- Mantenha a válvula de descarga regulada. Para saber se há vazamentos, jogue cinza de cigarro ou de papel no vaso sanitário. Se ela ficar circulando ao invés de ir para o fundo, é sinal de que a água está sendo perdida.
- Procure juntar o maior número de roupas antes de colocar na máquina de lavar. O mesmo vale para máquinas de lavar louça.
- Economizar o detergente ao lavar louça também ajuda, já que, no fim das contas, vai tudo parar no esgoto.

Alternativas


Reutilização

Algumas iniciativas interessantes estão surgindo para amenizar o problema do desperdício de água. Na cidade de Florianópolis, em Santa Catarina, por exemplo, a Metalúrgica Cacupé desenvolveu um sistema de coleta e armazenamento de água da chuva que pode ser usada para lavar roupas, regar o quintal ou abastecer a piscina. A economia chega a 250 000 litros de água por ano. É o que se chama aproveitamento de depósitos superficiais em que as chuvas reabastecem os reservatórios naturalmente. Para os especialistas os depósitos mais profundos só podem ser explorados a um custo muito alto.

Dessalinização

Em Dubai, uma cidade árida dos Emirados Árabes, 10 milhões de litros de água marinha, tratada por um caro processo de dessalinização, correm pelas piscinas do Parque Aquático Wild Wadi. Esse sistema de dessalinizar a água do mar só é possível para governos como os do Golfo Pérsico, que têm poder de investimento graças ao petróleo. Portanto não é uma alternativa viável para outros países.
Reciclagem

Já existe tecnologia para a reciclagem de água. A cidade de Durban, na África do Sul, por exemplo, trata o esgoto doméstico e revende essa água para o uso industrial. Isso representa uma economia de 10% de volume de água utilizado.


Aproveitamento Consciente


No Texas, um dos estados mais secos dos EUA, o aumento no custo de água levou os fazendeiros da região a trocar os sistemas de irrigação antigos por outros mais eficientes e modernos, com aproveitamento de 50% do precioso líquido e perdas de apenas 5%.

Você sabia ... que a água fervente congela máis rápido do que a água fria? É o chamado efeito “umpemba”, que já é estudado desde 1969, quando foi feito o primeiro trabalho sério sobre o assunto. Hoje, há algumas teorias mas nenhuma é definitiva.

* Cíntia Rygaard é jornalista especializada em meio ambiente.

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